Gestação consciente e epigenética, entrevista com Laura Uplinger

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A trilha sonora do resto de nossas vidas. Esta é a metáfora que a psicóloga e educadora perinatal Laura Uplinger usa para definir o período da gestação e explicar a dimensão da sua importância na existência de cada ser, “desde o nível mais místico até o mais celular”. Em entrevista à Comparto, ela fala com incrível intensidade dos avanços nesta área do conhecimento nos últimos 40 anos e de como ela serve ao futuro das sociedades. “A forma como tratamos as nossas crianças é a melhor maneira de saber como será o nosso governo daqui a 30, 40 anos”, argumenta.

Hoje já se sabe que o teor vibratório da mãe “está sendo transmitido a cada instante, na formação de cada tecido, de cada órgão”. E o que acontece no útero permanece como referencial por toda a vida. O parto, por sua vez, é a nossa maior transição, e a forma como acontece é reativada a cada grande mudança: nesses momentos de frio na barriga, a pessoa irá se apoiar na sensação que viveu naquele momento, tão intenso e dramático.

Na opinião de Laura, este patamar de conhecimento que alcançamos é útil não para apontar culpados, mas para refletir e encontrar meios de mudar a nossa história. “Temos um potencial que raramente atingimos, mas será que não daria para chegar mais perto se fôssemos fabricados melhor?”, propõe. É hora de celebrar a gestante coletivamente, tornando esta uma prática acessível a todos e não a poucos privilegiados. “O emocionante é que agora podemos, em nível de planeta, pensar coletivamente sobre tudo isso, e não deixar esse conhecimento restrito ao arcabouço teórico de uma tradição espiritual ou ao laboratório de alguns cientistas.”

Confira a seguir a entrevista completa:

Comparto: Em que momento está e o que precisamos saber sobre a psicologia perinatal?

Laura Uplinger: Ao mesmo tempo em que este é um tema muito complexo, há anos ele aparece em todas as tradições espirituais, dos Andes aos Himalaias, e nada é feito no sentido coletivo. Essa história ainda está muito elitista. Adoro a espiritualidade, mas não tenho visões ou contato fácil com o guia interno, mas só de saber dessas coisas e ter gestado e concebido uma criança, que foi algo tão lindo, pensei: Como isso pode ser para tão poucos? Deveria ser para todo mundo!

Às vezes nos enganamos, querendo ajudar os que estão em classes sociais desfavorecidas… Mas não são esses que correm verdadeiro risco. Quem está pondo a humanidade em risco está nas mansões, crescendo sem empatia para mais tarde criar armas de destruição em massa. Quer dizer, tanto o rico quanto o pobre estão com uma necessidade urgente de ajuda. A humanidade está sedenta por tudo isso. O emocionante é que agora podemos, em nível de planeta e humanidade, pensar coletivamente sobre tudo isso, e não deixar esse conhecimento restrito ao arcabouço teórico de uma tradição espiritual ou ao laboratório de alguns cientistas. 

Comparto: Como evoluiu este campo de estudo?

Laura Uplinger: Entrei em contato com este universo, da importância da vida no interior do ventre para o futuro adulto, nos anos 1970, e na época vigorava o determinismo genético. Ou seja, a ciência jurava de pés juntos que o encontro do espermatozoide com o óvulo, os dois virando um só ser celular e dali a uns meses formando o neném, tudo isso acontecia segundo uma programação geneticamente estabelecida. E a placenta tinha a função de proteger este trabalho de desenvolvimento genético, melhor dizendo: proteger a criança da mãe. O que a mãe pensasse, fizesse, comesse e sentisse não importava muito. Lá na Europa diziam: pode fumar, pode beber, mal não vai fazer, era só não chegar ao extremo.

Até hoje existem uns centros no Nepal, na Índia e em outros países, para barrigas de aluguel. Afastadas de suas famílias e do convívio social, pois não podem expor a barriga crescendo ou teriam de dar explicações, mulheres esperam bebês para outras mulheres dos Estados Unidos, Escandinávia e até do Brasil, imersas na maior tristeza, e os médicos ainda dizem: ‘Pena que não podemos colocá-las em coma, assim não atrapalhariam o processo’. Isso já é um desvio da nossa sociedade, mas ainda temos médicos que não se importam com o que quer que a mãe vivencie.

Nos anos 1980, a bioquímica deu um grande salto ao descobrir o papel das endorfinas, partículas de proteínas, catecolaminas, adrenalinas, tudo o que compõe o estado de ânimo da mãe e que se reflete em sua corrente sanguínea, atravessando alegremente a barreira placentária! A placenta protege sim o bebê de certos vírus e células, mas o que diz respeito ao psiquismo da mãe está sendo transmitido a cada instante, na formação de cada tecido, de cada órgão. E não estamos falando de alma, mas de célula.

A célula tem dois modos de se comportar: ou está se protegendo do meio ambiente ou está interagindo com ele, e quem transmite as informações é a membrana. Na gestação, isso é de importância capital: se uma pessoa é gestada em um ambiente de angústia, pronto, já é uma história, num ambiente de alegria, outra, vai querer comunicar. É o mesmo que acontece em uma nação: se um país quer se proteger dos países vizinhos, ele vai gastar um dinheirão com fronteiras e, nas universidades, não vai alcançar nada, não terá grandes intercâmbios… Assim é o mundo. Desde o grande, a nação, até a célula: dois modos de se comportar.

Em um livro de história, você pode ver: quantas guerras, quantas revoluções, quanta crueldade e despotismo… Muitos diriam: Ah, a natureza humana! Mas nem todos os seres humanos são assim. Então, a neurofisiologia começou a se reportar ao início de tudo: Será que estamos fabricando os seres humanos direitinho? Começaram a estudar como viviam as elites governantes, desde os mongois até o Egito Antigo, passando pela África. Era sempre a mesma história: casamento por interesse. Além disso, as grávidas muitas vezes ficavam reclusas, a amamentação era feita por uma ama de leite, quem educava as crianças eram os tutores. Hoje, sabemos sobre como o vínculo, o apego, a ternura são alimento para o cérebro. Nada disso existia naquela época. Não é de se espantar com o sofrimento no qual nasceram gerações e gerações! A forma como tratamos as nossas crianças é a melhor maneira de sabermos como será o nosso governo daqui a 30, 40 anos.

Comparto: A história reflete então, em termos sociais, o que contribui ou perturba um início de vida integral?

Laura Uplinger: Pode-se ver o quão difícil foi gestar, para nossas mães, avós, bisavós, tataravós… O quão pouco a mulher foi celebrada! A gestante tem que ser celebrada, tem que ser inspirada, tem que poder vibrar no nível de alegria dela para que cada tecido se forme bem em cada órgão, para comunicar bem ao bebê… Afinal, a maneira como cada um se desenvolve no ventre da sua mãe fica consigo o resto de sua vida como referencial de como deve se comportar.

Hoje já sabemos que as possibilidades de empatia, compaixão, compreensão, criatividade, controle dos impulsos são imensas para um bebê saudável e bem-desenvolvido. Temos um potencial que raramente atingimos, mas será que não daria para chegarmos mais perto disso se tivessemos sido fabricados melhor? Vamos imaginar uma pessoa gestada com entusiasmo, com alegria, uma mãe desejosa, transbordando de interesse por tudo isso, pela vida… Vem uma criança ao mundo, que pode ter nascido na Guerra Civil Espanhola, mas entra em uma ambiente e praticamente dissolve os problemas pela sua simples presença, de tanto entusiasmo que traz! E esta não é uma informação para apontar o dedo ou culpar alguém, apenas para pensarmos o que podemos fazer pelo futuro.

Comparto: O que seria uma gravidez consciente? É o mesmo que uma gravidez desejada?

Laura Uplinger: Desejada ou não, uma gravidez pode ser consciente, no sentido de a mãe saber, e claro o companheiro dela também, que não podemos viver uma vida perfeita e toda bonitinha, mas que podemos nos organizar em nosso sofrimento e comunicar isso à criança. A gestação consciente talvez seja isso: rodear-se do que mais ama, e seria bom que a sociedade fizesse algo por isso também, para poder gestar bem. Porque a gestante precisa de três coisas essencialmente: comer bem (sem comida a gente pode esquecer todo o resto, porque nem o cérebro se desenvolve), alegria (para que os órgãos estejam bem) e inspiração (que vem da beleza, pois não acredito que a gente esteja aqui só para beber, comer, trabalhar e dormir).

Estamos aqui para desbravar esse universo e nos maravilharmos com a extraordinária aventura humana. Se a gente se entusiasma, isso significa para a criança lá dentro: Oba! Lá fora tem coisas bacanas para serem vividas! Ao mesmo tempo, estamos dando para nossos filhos a possibilidade de reconhecerem esses estados de maior transcendência, se um dia quiserem vivê-los. Enfim, a gestação consciente é o mesmo que uma vida consciente: trazer a atenção para aquele gesto que até então estava inconsciente, o olhar, a voz… E saber que tudo o que dá alegria, um sorriso interior, é um plus para a criança que está se desenvolvendo.

Comparto: A partir de que momento isso começa? É na concepção?

Laura Uplinger: É uma bola de neve. No hinduísmo, a concepção é o momento mais importante das nossas vidas. É como ao jogar uma pedra: o momento em que você tem a liberdade sobre sua trajetória é no instante do lançamento, antes de largar a pedra. É o momento extraordinário que servirá como uma trajetória fractal [na qual o mínimo contém o todo], quando temos o poder de dizer sim para que venha alguém. Uma concepção em que existe amor contém uma vibração energética que é um sim ao céu, um sim cósmico. Então, se preparar para este momento pode ser bacana

Que vontade é essa de ter um filho? – você começa a refletir. É só física? Por que e para que vou ter filho? Precisamos de mais uma pessoa no planeta? Não, mais uma pessoa não precisa, mas um ser que queira construir, aí precisamos de muitos. Quero um filho para mim ou quero um filho para a sociedade? É claro que será para mim também, mas qual é o motivo? E você lê coisas, sonha, medita. É possível se apresentar a esse futuro filho antes de concebê-lo e dizer: seu pai e eu somos assim, assado, e esse “brincar com as energias da vida”, que é diferente para cada casal, põe uma neurofisiologia em andamento e deixa o terreno preparado. É como se eu convidá-la para um jantar: vou preparar a minha casa, colocar flores, velas, desligar o telefone. Para um filho não vai ser diferente, afinal, quanto dura uma maternidade? Aí dá para ter uma dimensão do momento importante que é a concepção.

Comparto: De que maneira a forma como trazemos as pessoas ao mundo interfere nisso tudo?

Laura Uplinger: A gestação é a trilha sonora do resto de nossas vidas, análoga ao teor vibratório da mãe e ao que se viveu durante a vida intrauterina. E o parto, essa coisa tão dramática, tão forte, é a maior transição das nossas vidas. Nunca nada vai ser parecido. Muda a circulação, a respiração, o peso, o corpo, o frio, tudo. O som é percebido de maneira diferente, a luz é percebida de maneira diferente. Assim, o parto como se vive é levado com a gente e reativado em cada grande transição. Em cada mudança, de escola, de cidade, de profissão, de emprego, daquelas que dão um friozinho na barriga, a pessoa se apoia no que viveu neste momento. Se o parto foi violento, se foi amigo, se foi saudável, se foi todo anestesiado, haverá uma tendência a procurar esse estado.

Por isso, eu defendo que o parto seja o mais harmonioso possível, o mais mamífero, como diz Michel Odent. Quanto menos atrapalhado for o trabalho de parto, mais rápido e íntegro ele será. Luz, sensação de ser observado, medo… São coisas que fazem um parto de 4 horas durar 40! A gente é feita para parir como se fosse adormecer. Isso ajuda os homens a entenderem o que acontece, porque eles também adormecem. Tive a minha filha na beira da lareira, no inverno de Washington, com uma parteira que me deixou em paz e olha, que trabalho de parto gostoso! Ao mesmo tempo em que sentia aquela força, a barriga endurecendo, todo o meu assoalho pélvico contraindo, não houve dor. Eu sabia que não queria água, mas fogo para me ajudar a desconectar. Sou muito lógica, muito cartesiana, e não queria pensar. Com o fogo eu não pensei, mas senti muita coisa. Tive a sorte de viver a beleza do parto.

Comparto: Qual é a potencialidade de uma gestação harmoniosa para a sociedade?

Laura Uplinger: Imagine se você acordar amanhã e as pessoas não estiverem mais doentes, não houver mais prisões, nem problemas psiquiátricos? Como será o mundo se toda pessoa se interessar por não poluir o rio, o ambiente, o outro, e se tiver curiosidade para estudar e quiser saber? Eu não sei descrever, não vivi uma idade de ouro assim. Mas posso imaginar.

A medicina e a ciência já descobriram tanta coisa, é tão bacana o que já se sabe de gestação, por que não deixar esse pessoal em paz e cuidar para que a sociedade civil, leiga, faça coisas lindas para as gestantes? Nós precisamos das pesquisas, mas com tudo o que já se sabe está na hora de os governos começarem a trabalhar para isso, construírem lugares para o bem-estar das gestantes. Um dia, vão ver que é melhor gastar o dinheiro antes de a criança nascer do que depois.

Se você oferece uma maravilhosa primeira infância para um ser gestado na angústia, esses anos vão se apagar, porque a educação não corresponde ao que ela viveu lá dentro, é como se fosse um verniz. Não quero ser pessimista e dizer ‘é tarde demais’, mas, antes de tomar as redeas da própria vida e crescer, a pessoa pode encarar muitos sofrimentos. Aliás, não estaria neste mundo se não fosse possível, com terapias e disciplinas espirituais, recuperar muito do que se recebe em vida intrauterina, mas o meu sonho é que a vida intrauterina comece a ser cada vez melhor para os seres vindouros. E a epigenética, ciência que vai além da genética [leia definição da revista Carbono] já mostra que não é preciso esperar muitas gerações para ver uma mudança. É de uma para outra.

 

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