Estante Comparto: “A técnica do rebozo revelada”

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A mulher gestante e a mulher em trabalho de parto são seres em expansão, em processo de plena abertura. O movimento – tanto interno quanto externo, ou seja, tanto emocional como corporal – é importante para que ela consiga atingir os níveis de expansão absoluta tão necessários para parir um bebê. (Naolí Vinaver, no livro “A técnica do rebozo revelada”)

Até hoje produzido por meio de técnicas artesanais indígenas, o rebozo, peça tradicional da indumentária mexicana que se assemelha a um xale, exerce um importante papel na promoção da cultura mesoamericana ao redor do mundo. Sua origem remonta ao período colonial, quando teria sido criado como alternativa às caras mantilhas espanholas, tornando-se um elemento central da China Poblana, traje tradicional entre as mulheres. A partir de então, assumiu o caráter de símbolo cultural, referendado por muitos revolucionários, escritores, colecionadores e artistas, como Frida Kahlo (1907-1954), que, ao vesti-lo sobre os ombros, estava também se posicionando politicamente, em solidariedade aos trabalhadores do seu país.

Mas a influência deste emblema estende-se para além da esfera da moda. Em castelhano, por exemplo, a palavra rebozo vem do verbo rebozar, sinônimo da ação de cobrir-se ou proteger-se. Ao alcance de todos na vida mexicana contemporânea, a peça de tecido faz parte da rotina diária e representa a jornada de uma pessoa do nascimento à morte, sendo usado como carregador de bebê assim como mortalha. Está presente também em um dos momentos mais especiais desta trajetória: a gestação, o parto e o pós-parto. E é neste período que se concentra o livro “A técnica do rebozo revelada”, fruto de uma parceria das doulas e educadoras perinatais holandesas Mirjam de Keijzer e Thea van Tuyl e a parteira mexicana Naolí Vinaver.

Publicado no Brasil em 2015, como parte da coleção Parto com Prazer, da editora Lexema, e disponível na loja online da Comparto, este livro destaca o que talvez seja a caraterística mais singular do rebozo: a sua simplicidade e capacidade de aproximar pessoas. Em todos os seus usos, seja acalentar o bebê, aliviar as dores do parto, equilibrar as emoções e tantos outros apresentados pelas autoras, dispensa aparatos espaçosos e caros, e convida quem estiver ao redor a participar, o parceiro ou parceira, uma amiga, a mãe ou outro familiar.

“Quando engravidam, as mulheres expandem seu corpo, seu coração e sua alma pelo bem de seu filho. Dar à luz é a maior demonstração de amor e, muitas vezes, exige alguns sacrifícios. O rebozo aplicado pelas mãos amorosas de doulas, parteiras e outros cuidadores ajuda a mulher e o bebê, pois oferece apoio, conforto, alívio e, no período pós-parto, um retorno ao estado de completude e integridade”, descreve Naolí.

Na apresentação, a editoras ressaltam que a aplicação do rebozo na assistência a gestantes e a parturientes, baseada em um conhecimento transmitido entre as mulheres, de geração em geração, faz uma ponte entre o passado e o futuro – “não como uma volta no tempo ou uma negação da tecnologia, mas como opção coerente com o atual estágio da ciência”. Notam também que o livro, publicado originalmente na Holanda em 2008, chega ao Brasil em um momento em que o modelo obstétrico dominante, desnecessariamente medicalizado e intervencionista, dá espaço a práticas mais naturais, voltadas sobretudo ao bem-estar e ao empoderamento da mulher, contribuindo para reforçar um modelo de parto cada vez mais respeitoso.

Além de trazer, na primeira parte, informações sobre a história do rebozo e seus diferentes usos, o livro explica com especial atenção (e lindas ilustrações) as práticas de massagens com o tecido, que, como vale notar, podem ser aplicadas não apenas pelas doulas, parteiras e obstetrizes, mas também pela família e amigos atenciosos da gestante. Na parte 2, se detém sobre as informações práticas, como as dimensões do tecido, o material ideal, onde comprar e como cuidar do rebozo, entre outras. E então, na terceira parte, apresenta 11 técnicas indicadas na gravidez (uma oportunidade de relaxamento à gestante), no trabalho de parto (um recurso para a mulher lidar com as contrações e aliviar a dor) e no pós-parto (muito benéfico na recuperação da nova mãe). Cada uma delas envolve: situação de aplicação, objetivo, preparação e posicionamento do rebozo e como aplicar a técnica.

Na tradição mexicana e guatemalteca, conforme uma das curiosidades relatadas no livro, a massagem com rebozo é integrada ao cuidado com as mulheres grávidas. No puerpério, portanto, a parteira oferece a massagem completa (descrita na 11ª técnica) com outra parteira, doula, parente ou amiga. É uma massagem de corpo inteiro, com sete etapas, acompanhada de um banho de ervas com vapor e de um ritual de “fechamento do corpo” com o rebozo. “Durante a massagem, sempre procurar demonstrar a mesma delicadeza e as mesmas atitudes que você teria com um bebê. Concentrar-se completamente nos desejos da mulher”, recomendam as autoras.

Outras dicas e conselhos valiosos surgem ao longo do livro, como “receber massagens periódicas durante a gravidez é uma ótima forma de exercitar e experimentar a sensação de deixar o corpo fluir durante o parto”, “o relaxamento resultante da massagem enseja estímulos hormonais próprios”, “na fase da dilatação, você pode usar uma bolsa de água quente durante a massagem com rebozo”, “durante as contrações, a mulher pode usar o rebozo para se pendurar – essa posição ajuda a ampliar a pelve”.

Uma vez que oferece proteção e relaxamento de diferentes maneiras, o rebozo pode ser aproveitado também por outros públicos, além da gestante e parturiente. O seu uso em muitos países ocidentais está relacionado ao sling: envolto pelo tecido, em uma posição confortável, que respeite sua curvatura natural, o bebê sente o colo da mãe (ou do cuidador) como uma extensão do útero (leia a nossa matéria O melhor lugar do mundo para os bebês). Há também uma curiosa técnica de massagem, comumente oferecida no México para tranquilizar bebês inquietos ou que choram muito, descrita com mais detalhes no livro, na qual duas pessoas embalam o bebê no rebozo, balançando-o de um lado para o outro.

A mensagem que fica ao ler “A técnica do rebozo revelada” é a de que, independente do uso que se dê ao rebozo, ele é um recurso acessível, que facilita a conexão das mulheres consigo mesmas e com seus bebês. Revela-se como uma oportunidade de cuidar-se, relaxar e receber a ajuda e o conforto merecidos neste período e, por extensão, ter uma gestação mais consciente, cuja importância foi esclarecida pela psicóloga e educadora perinatal Laura Uplinger em entrevista à Comparto. Por trás do seu uso, existe ainda uma maneira de disseminar, entre populações que não têm este olhar, o valor da qualidade das vivências da mulher durante a gestação no desenvolvimento da sociedade, sem contar que representa um gesto de reverência a um conhecimento ancestral e feminino por natureza.

 

3 Comentários

  1. claudia barra disse:

    Raquel quando chegar o livro da Naoli sobre rebozo pode me avisar por gentileza

  2. Gostaria de saber se tem o livro disponível?

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