Sororidade e o valor dos grupos de apoio e coletivos para a humanização da saúde da mulher

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Em uma conversa sobre as mudanças no cenário do parto humanizado no Brasil, a obstetriz Priscila Raspantini apontou para uma questão importante: a influência da internet na disseminação de informações sobre o tema e na formação de redes de apoio entre as mulheres. Segundo a profissional, que integra a equipe da Casa Moara, o grupo de parteiras La Mare e o Coletivo Feminista Sexualidade e Saúde, atuantes em São Paulo, as mídias sociais são um grande canal de entrada para o parto normal humanizado. “É difícil alguém procurar pelo nosso atendimento sem antes ter passado por um grupo desses, como o Cesárea? Não, Obrigada! As mulheres se uniram”, observa.

A seu ver, uma das razões para isso é que, ao passar por uma experiência como essa, que é muito forte e transformadora, ela naturalmente vai querer compartilhar com outras mulheres para que também tenham essa oportunidade. “Estes espaços virtuais são especialmente importantes enquanto sabemos que a mulher não encontra, nos seus ambientes mais corriqueiros, como no trabalho e às vezes na família, o apoio necessário, sendo, muito ao contrário, julgada e reprimida em suas escolhas”, afirma Priscila. A partir deste primeiro contato, elas começam a frequentar os grupos de apoio, que aprofundam essas informações e o convívio entre pares: Gama, Casa Moara e Co.madre são alguns pontos de referência.

Reconhecendo o valor destes grupos, nos quais as pessoas se encontram e deixam de se sentir sozinhas em suas escolhas, foi criado em 2014, pela mineira Maria Carolina Machado, o Mamu – Mapa de coletivos de mulheres, uma ferramenta prática e fundamental, que reúne e mapeia uma miríade de coletivos, organizações, movimentos, grupos e projetos de todo o país, que abrangem toda uma gama de demandas femininas: maternidade, cultura, saúde, amamentação, parto humanizado, direitos das mulheres, violência, aborto, empreendedorismo e muitos outros. Alguns têm sede e endereço fixo e outros são virtuais.

Ao buscar “atendimento à família”, por exemplo, você encontra o grupo “Parto Alegre”, que tem como intuito compartilhar informações sobre o movimento da humanização do parto, e o “Temos que falar sobre isso”, uma plataforma de relatos anônimos de mães que tiveram depressão pós-parto. Ao procurar “direitos sexuais e reprodutivos”, aparecem, entre outros grupos, o “Cientista que virou mãe”, que incentiva a maternidade e a paternidade ativas, e o “Coletivo Feminista Sexualidade e Saúde”, do qual Priscila faz parte.

E, por falar nele, o Coletivo desenvolve, desde 1981, um trabalho de atenção primária à saúde da mulher de uma perspectiva feminista e humanizada. A ONG propõe um modelo que se diferencia do atendimento da gineco-obstetrícia tradicional, pautando-se em tratamentos médicos mais naturais e menos agressivos e no conhecimento do corpo como um elemento central para a saúde da mulher. Segundo a definição da equipe: “um lugar onde a mulher é percebida como um indivíduo, o sujeito da ação de saúde, capaz de entender, decidir e cuidar do próprio corpo e da própria vida”.

Entre os serviços disponíveis, realizados por médicas ginecologistas, médicas da família e da comunidade e obstetrizes, estão: atendimento em ginecologia, obstetrícia, pré-natal e pós-parto, consultoria em amamentação, preparação e planejamento de parto domiciliar, e outros. Vale ressaltar que as consultas são cobradas, mas a um preço mais acessível do que se encontra na rede particular tradicional. Há também alguns serviços ligados à saúde em geral, como atendimento psicológico. Neste ano, a partir de uma parceria com a Secretaria de Políticas para Mulheres, o Coletivo dedicou-se à produção da cartilha “Direitos das Mulheres no Parto – Conversando com profissionais da saúde e do direito”, que estará disponível em breve.

O aspecto da sororidade foi o que ficou mais presente para a jornalista Cecília Garcia desde a sua primeira consulta ginecológica no Coletivo. Vinda de um histórico de consultas agressivas, em um molde pouco pessoal, inquisidor e que não apresentavam alternativas ao que estava procurando – que naquele momento era não mais tomar pílula anticoncepcional -, ela teve uma surpresa positiva ao se deparar com uma consulta de longa duração, que incluiu uma conversa franca não apenas sobre a sua condição física e médica, mas também sobre toda a conjuntura subjetiva e emocional que a envolvia naquele momento, permeada de uma grande atenção por parte da médica.

“Foi tudo ótimo e uma experiência completamente diferente do que encontrei no sistema privado convencional e de convênio. Chegamos juntas a um consenso do que fosse me agradar e agradar ao meu corpo”, compartilhou. E saiu de lá pensando: “A quem realmente servia a médica daquele outro consultório onde costumava ir, repleto de caixas de remédios anticoncepcionais na recepção, que alternava freneticamente consultas a pacientes e representantes farmacêuticos?” Em suas diferentes formas, esta é uma questão que poderia permear as discussões de muitas dessas iniciativas de mulheres que, ao atuar por novas políticas públicas, criar grupos de apoio, compartilhar informações, ir à luta pelo fim da violência, conscientizar, enfim, procuram restaurar – cada uma à sua maneira e de todas as maneiras possíveis – a liberdade da mulher de ser.

 

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