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Relato de parto: impactos da separação da mãe e bebê
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Feche os olhos. Imagine um bebê no ventre materno… Um ambiente quentinho, escuro, líquido, em que o silêncio só perde lugar para os ritmos corpo, a respiração, as batidas do coração. É neste ambiente que o bebê passa aproximadamente 280 dias, desde o início de sua existência, por cada etapa do desenvolvimento até que esteja pronto para a maior transformação imaginável: nascer!

Como você imagina que seja esta “chegada”? Que acesso tem ao seu próprio registro de nascimento? Como gostaria que fosse para o seu bebê?

Nossa visão do nascimento pode ser expressada no parto de diversas maneiras, como o local escolhido para o parto, os profissionais que envolvidos na assistência e os procedimentos que são realizados, ou não. Para isso é preciso entender cada um deles, certo?

Assim que o bebê nasce (independente da via de nascimento), ainda está conectado à placenta pelo cordão umbilical, que pulsa e o garante oxigênio para os próximos minutos, possibilita uma adaptação da respiração extrauterina e também aumenta seu aporte de ferro, o que contribui para a prevenção de anemia. O clampeamento (interrupção do fluxo) tardio é muito benéfico para o bebê, mas embora seja respaldado por evidencias cientificas, nem sempre acontece nos partos convencionais e hospitalares.

O contato pele a pele imediato com a mãe é essencial e preconizado nos partos humanizados, pois é no colo de sua mãe que o bebê reconhece seu espaço, é aquecido e acalmado pelo mesmo som que havia no útero. Mãe e bebê se encontram, se olham, se cheiram, se reconhecem. O bebê se organiza nos braços da mãe e faz uma transição suave para a vida.

Quando o bebê demora um pouco mais para reagir ou está com algum tipo de dificuldade (e somente então), o pediatra ou parteira o separa da mãe para prestar-lhe assistência. A aspiração das vias aéreas somente deve ser realizada em casos de reanimação neonatal e não de forma rotineira, como acontece ainda hoje na maioria dos nascimentos no Brasil.

O apgar é uma nota atribuída pelo pediatra ou parteira ao estado do recém-nascido considerado no primeiro e no quinto minuto de vida e parte da observação de características como tônus muscular, reflexos, respiração, coloração da pele e batimentos cardíacos.

Pouco a pouco o bebê vai se adaptando e começa a procurar o seio. Muitas vezes mama forte e instintivamente, outras vezes apenas faz um reconhecimento deste espaço, lambe, cheira e aninha-se ali. Permitir que o bebê tenha a possibilidade de explorar a amamentação na primeira hora de vida é o que de mais efetivo pode contribuir para o sucesso da amamentação futura.

Depois deste momento inicial de transição do bebê para a vida fora do útero o bebê pode receber alguns cuidados médicos, se necessários, embora, mais uma vez, sejam realizados protocolarmente e de rotina na maioria das maternidades brasileiras: o colírio de nitrato de prata (conhecido também como “credé”), que deve ser utilizado em caso de contaminação materna por gonorréia e nascimento via viaginal (no Brasil é feito inclusive para mulheres saudáveis e nascimentos cirúrgicos); a vacina de Hepatite B que pode ser administrada nas primeiras horas (caso a mãe seja portadora do vírus) ou primeiras semanas de vida e a Vitamina K, que previne a doença hemorrágica no recém nascido e pode ser feita em dose única injetável, 3 doses orais (para isso os pais precisam comprá-la e administrá-la) ou não ser feita (a incidência é de 0,3 a 1,7% dos recém nascidos que não recebem a vitamina).

Após estes cuidados é realizada a pesagem e medição do bebê para registros e o bebê deveria voltar para o colo de sua mãe – e de onde não precisaria nem ter saído 😉 Nas maternidades brasileiras o bebê deve passar por um berçário para observação, aplicação das vacinas e testes, assim como para o banho, outro ponto divergente com as evidências que apontam que o bebê não é beneficiado com banho nas primeiras horas de vida, pois apresentará mais dificuldade de regular sua temperatura, assim como não absorverá o vérnix, aquela gordurinha que protege e hidrata a pele do bebê e perderá seu cheiro característico e grande responsável pelos mecanismos mais primitivos de vinculo entre mãe e filho.

Para garantir que o bebê não passe por procedimentos desnecessários, obsoletos ou até mesmo prejudiciais é importante contar com um cuidado humanizado do recém nascido, seja provido por um neonatologista ou por uma parteira capacitada. Lugar de bebê saudável é no colo da mãe – pelo maior tempo possível e, no mínimo, pela primeira hora de vida, a sua “hora dourada”. É preciso que mostremos para os bebês que acabam de chegar que há amor por aqui. <3

 

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