Atividades culturais são fonte de inspiração para mães e bebês

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Dança, música, literatura, natureza. Tanto quanto os hábitos de alimentação, tudo o que os pais mais admiram e apreciam fazer é alimento para a formação dos filhos.

Ao pensar nos cuidados essenciais durante o período pré-natal, em primeiro lugar (e talvez em último!) costuma-se lembrar dos hábitos de alimentação e da condição física. É evidente que manter uma dieta rica e nutritiva e um estilo de vida saudável, como ressaltamos em nossas dicas para uma gestação consciente, são fundamentais e podem evitar desconfortos e problemas futuros tanto para a mãe como para o bebê, além de facilitar e beneficiar a formação do feto no útero e depois. O que não se fala com frequência – e por isso preparamos este post – é sobre a importância das atividades artísticas e culturais como fonte de prazer e de inspiração para mães e gestantes.

Já se reconhece, em meio à comunidade científica e sociedade civil, que, no ventre da mãe, além do componente genético, o bebê recebe informações psíquicas e emocionais que contribuem para a sua formação. O que a gestante vivencia é traduzido em moléculas e transmitido ao feto por relações bioquímicas, fazendo com que ele experimente sensações, às quais responde e registra à sua maneira. A saúde ao longo da vida, o equilíbrio interior, a alegria, a aptidão para o amor, o amor próprio, assim como características relacionadas à inteligência, às habilidades, aos dons e às virtudes, são aspectos do ser influenciados neste período de gestação.

“Ninguém duvida que a alimentação da mãe é importante para o bebê em desenvolvimento; mas, hoje, estudos feitos por Hofer [neurocientista Myron A. Hofer, da Universidade de Columbia e do Instituto de Psiquiatria do Estado de Nova York] e outros, sugerem uma influência maior ainda: os sinais que chegam – cristalizados através da mãe como um redemoinho de comportamentos, sensações, sentimentos e pensamentos – mergulham o feto num mundo primordial de experiências que dirigem constantemente o desenvolvimento da psique”, ajudou a definir o psiquiatra canadense, Thomas Verny, autor dos livros A Vida Secreta da Criança Antes de Nascer e O Bebê do Amanhã.

É este o princípio de atuação da psicóloga e educadora perinatal Laura Uplinger: interceder nas diferentes esferas sociais para que a gestante seja celebrada e possa manter um teor vibratório de alegria e amor, estabelecendo uma comunicação de mais qualidade com o bebê. Afinal, lembra ela em entrevista à Comparto, uma vez nascidos, nos movemos referenciados também pela informação molecular recolhida e registrada nos meses de vida intrauterina. “Temos um potencial que raramente atingimos, mas será que não daria para chegarmos mais perto disso se tivéssemos sido fabricados melhor?”, reflete. Para ela, o exercício de imaginar uma pessoa gestada por uma mãe desejosa, transbordando interesse pela vida, remete a alguém que, ao entrar em um ambiente, praticamente dissolve os problemas pela sua simples presença, de tanto entusiasmo que traz em si – e ao mesmo tempo nos ajuda a pensar no que podemos fazer pelo futuro.

Um documento público, compartilhado pelo governo grego com seus cidadãos, seguro da importância do período pré-natal para a saúde, equilíbrio psíquico e potencial criativo de futuros adultos, recomenda: “Mãe, o quanto for possível, viva a sua gestação em um estado de alegria, elevação, gratidão e maravilhamento. Cante, leia, caminhe, faça tudo o que te traga inspiração, para que os hormônios da alegria circulem no seu sangue, e o corpo de sua criança se desenvolva harmoniosamente. (…) Como mãe, os estados superiores da sua alma são um excelente material para uma fundação robusta da saúde, inteligência e talentos de um futuro adulto!”.

Ainda que não tenhamos um entorno público voltado para o deleite das gestantes, repleto de lindos parques e atividades culturais gratuitas, como gostaríamos, alguns caminhos tornam mais viável o intento de cercar-se de coisas que se ama e praticar atividades prazerosas.

Em 2008, durante sua primeira gestação, a pesquisadora e professora de dança Tatiana Tardioli teve a sensação de que, enquanto dançava, nos ensaios ou dando aulas, percebia de maneira especial a presença de sua filha, Nina. “Nos sentia muito próximas e ligadas nesses momentos”, conta. Esta foi a inspiração inicial para criar a Dança Materna, uma rede colaborativa com mais de 40 professoras em todas as regiões do Brasil e em Mendoza, na Argentina, que oferece aulas de dança para gestantes, mães, pais e bebês.

“Nossas aulas não são de um tipo de dança em particular, o que temos são propostas que levam em conta cada fase”, explica. Em comum, todas propõem um trabalho corporal de qualidade para aliviar cansaços, desconfortos e tensões, além de favorecer a saúde e o bem-estar, e trazem por trás uma concepção estética e um cuidado com o ambiente. “As mulheres precisam se nutrir de afeto e beleza para dar conta de cuidar de seus bebês e manter uma relação saudável consigo mesmas”, acredita. Disso faz parte o encontro com outras mães, em um espaço sem julgamentos, e a prática de atividades que as ajudem a se conectar com o prazer da maternidade, indo além das funções de cuidado que exercem diariamente.

Nas aulas, as gestantes são incentivadas a desacelerar a mente e vivenciar uma prática corporal que favoreça a saúde e ao mesmo tempo a conexão física e emocional com o bebê. Também estão se preparando para o momento do parto e aprendendo a respeitar o ritmo e o tempo de seus corpos, distanciando-se da pressão de corresponder a um padrão imposto. “Ainda que na dança a gente sue e se exercite, o foco é sentir o prazer de habitar esse corpo e não desejar ansiosamente um outro, que não nos pertence, nem faz sentido”, afirma Tatiana.

Os bebês, por sua vez, encontram espaço livre para desenvolver sua motricidade. “Ganham mães menos ansiosas e mais disponíveis. Ganham colo, acolhimento e o conforto de estarem aninhados às mães, no ritmo do coração delas, mais relaxado e apaziguado. Ganham um sono mais tranquilo e prolongado. Têm menos cólicas quando são pequenos. Ganham um ambiente de amor e empatia, onde são bem-vindos e podem mamar quando quiserem, inclusive dançando, se a mãe assim desejar”, explica a professora.

Tânia, mãe do Moreno e uma das professoras do projeto, que antes foi aluna, procurou a Dança Materna para fazer uma atividade física que lhe desse prazer, mas encontrou algo além: “uma atividade maternal de amor, respeito e carinho com o corpo de mulher grávida, uma chance de se preparar para o parto, física, mental e espiritualmente, e de conexão com o ser que gestamos, assim como com outras mães e seus filhos”.

Em seu depoimento, relata: “Minha última aula foi um dia antes de eu entrar em trabalho de parto e foi linda, suave, dedicada a este momento. (…) Foi um prazer enorme voltar com ele fora da barriga, reencontrar minhas amigas e seus pequenos. Mais uma vez, incrível! O carinho com o corpo da mãe, esquecido e judiado… Exercícios e massagem para nós, massagem e carinho nos filhotes… Todos cuidados e acarinhados, então vamos dançar com as crias juntinhas – no sling, que é essencial à maternagem, para que todos saiam da aula sãos e salvos, felizes, com vínculo fortalecidos e cheios de amor”.

Pela própria experiência com o Dança Materna, Tatiana observa que a gravidez é uma fase regressiva para a mulher, ou seja, traz à tona experiências intensas, alegres e profundas ao mesmo tempo. “Olhar para aspectos que precisam ser trabalhados antes da chegada do bebê é bom para todos, e a dança, conduzida com este propósito, tem o poder de propiciar este encontro do corpo com as emoções”, define.

Um recurso poderoso como este, reconhecido histórica e socialmente, é a música. “A música dá uma alma ao universo, asas ao espírito e à imaginação, ela vivifica tudo”, disse Platão. Quem nunca foi ou soube de um caso de uma mãe que costumava ouvir certa canção enquanto acalentava seu bebê no ventre e, depois de alguns anos, ao tocá-la novamente, a criança se acalmava no mesmo instante, como se a reconhecesse? A técnica é tão antiga quanto a própria maternidade, descreve Verny: “na Uganda rural, as mulheres cantam e dançam durante toda a gravidez e depois usam as mesmas músicas para acalentar os filhos depois que eles nascem; no Japão, a prática tradicional do taikô incluía a comunicação com a criança por nascer através da música”, e por aí vai, em uma série de exemplos mais próximos ou mais longínquos.

Um dos primeiros pesquisadores modernos a estudar o canto durante a gravidez foi o obstetra Michel Odent, que organizava reuniões em torno de um piano no vilarejo francês de Pithiviers. Ali, mães grávidas cantavam juntas e, com isso, Odent percebeu um aumento na intimidade do grupo e o fortalecimento do vínculo entre cada mãe e seu filho por nascer. Em comparação à população comum de grávidas, o grupo de canto teve partos mais fáceis e vínculos mais fortes entre mãe e bebê imediatamente após o nascimento. A partir de sua pesquisa, a parteira espanhola Rosario Montemurro lançou um programa de educação materna no Centro de Saúde de Vilamarxant, que oferece, além dos cursos teóricos básicos, encontros para cantar, caminhadas, piqueniques, jogos, filmes e reuniões com os pais dos bebês.

Os efeitos da música na psique das mães e das crianças é um dos motivos do projeto de vida de Isadora Canto. Partindo da própria experiência de música com seu primeiro bebê no ventre, ela realizou estudos e pesquisas em diversos países sobre os benefícios da música durante a gravidez e fundou seu primeiro projeto de vivência musical na gestação, Acalanto. Dez anos depois, em seu segundo puerpério, convidou algumas amigas para participar de um grupo de cantos e cantigas e acabou gerando o Materna em Canto: o único coral do mundo formado por mães e bebês. “O grupo foi ficando tão coeso e harmonioso que arriscamos fazer alguns arranjos, aplicar técnicas vocais em mulheres que nunca cantaram e o resultado foi emocionante”, conta.

O conjunto original já mudou e se reciclou, mas segue desde 2008 apresentando seu repertório de canções sobre o universo feminino e infantil com e para crianças, dentro e fora da barriga, no sling ou correndo pelo palco. Em paralelo às oficinas de canto, nas quais “o despertar da voz vem do coração da mãe para o bebê”, Isadora faz shows próprios e tem dois álbuns lançados Vida de Criança e Vida de Bebê. Como descreveu Paulo Tatit, compositor e integrante da dupla Palavra Cantada, “em todas as tribos do planeta, desde as mais remotas até as daqui da nossa cidade, tem alguém que canta para as crianças. Se eu fosse o chefe da nossa tribo eu convocaria a Isadora para cantar, pela delicadeza da sua voz e pela alegria que emana do seu canto”.

Em suma, como sugere o documento às famílias gregas, vivam na beleza! Seja por meio da música, da dança, da poesia ou da natureza, o que os pais apreciam contribui para formar uma criança mais saudável e feliz. Tudo para ela é alimento: o que você come, o que respira, o que vê, o que escuta, o que admira e imagina. Perceba as suas reações. Comunique-se com ela por todos os canais possíveis. E aproveite este período para enriquecer a sua vida interior, elevar seus pensamentos sobre si, sobre os outros e sobre o universo. Afinal, como colocou Laura, estamos aqui para desbravar esse universo e nos maravilharmos com a extraordinária aventura humana. “Se a gente se entusiasma, isso significa para a criança lá dentro: Oba! Lá fora tem coisas bacanas para serem vividas!”

* Foto de Gustavo Ferri/Dança Materna

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