Carreira e maternidade: onde estamos e para onde vamos?

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Quantas vezes, em uma roda de conversa de amigos, família ou colegas de trabalho, envolvendo mães e pais presentes, futuros ou pretéritos, você já ouviu falar sobre como em certos países europeus a licença-maternidade dura “x” ou “y” a mais do que no Brasil? Quantas mulheres que conhece se ocupam intensamente da tarefa de desvendar qual seria o melhor momento para engravidar e, após receberem a notícia de que terão um filho, em projetar como será mesmo a sua vida dali para frente – muitas vezes sem chegar a uma resposta desejável? Por que insistimos nesses pontos e mais: será que precisamos?

A nossa conclusão é a de que, neste momento e perfil de sociedade, talvez sim, ainda precisemos, na medida em que essas perguntas, em todos os seus aspectos, conduzem a uma reflexão necessária sobre o ponto em que nos encontramos e o ponto no qual queremos chegar. Afinal, como já foi provado por estudiosos no assunto, o nascimento e os primeiros anos de vida são essenciais para a construção de um mundo melhor.

“Imagine se você acordar amanhã e as pessoas não estiverem mais doentes, não houver mais prisões, nem problemas psiquiátricos? Como será o mundo se toda pessoa se interessar por não poluir o rio, o ambiente, o outro, e se tiver curiosidade para estudar e quiser saber? Não vivi uma idade de ouro assim, mas posso imaginar”, descreveu a educadora perinatal Laura Uplinger, em entrevista à Comparto. “Com tudo o que já se sabe está na hora de os governos começarem a trabalhar para isso, construírem lugares para o bem-estar das gestantes. Um dia, vão ver que é melhor gastar o dinheiro antes de a criança nascer do que depois”, completou.

Para fazermos coro à discussão, no Brasil de hoje funciona assim: a licença maternidade (afastamento da mulher trabalhadora sem que haja desconto do salário) dura de 3 a 4 meses, dependendo das regras da empresa; e a licença paternidade, meros 5 dias a partir da data de nascimento da criança. Com a recente aprovação do Marco Legal da Primeira Infância, uma decisão que tornou o país o primeiro da América Latina a reconhecer e a valorizar esta fase da vida, as empresas cadastradas no Programa Empresa Cidadã podem estender este prazo para 6 meses no caso da mãe e 20 dias no caso do pai.

Já na Suécia, para efeito de comparação, existe, desde 1974, a licença parental, que se refere à família cuidadora, sem distinguir pai e mãe, e se estende por até 1 ano e meio. De acordo com este formato, pai e mãe precisam gozar de pelo menos 1 mês cada um, mas os outros meses de licença podem ser compartilhados com o parceiro ou parceira. Ou seja, os pais decidem quem fica quanto tempo com os filhos, da maneira como considerarem melhor. Além disso, mesmo quem tem empresa própria recebe o benefício, este pode ser usado até que a criança complete 8 anos de idade e, se o pai usa 100% do tempo a que tem direito, recebe um bônus financeiro.

Segundo afirmou a presidente sueca da Federação Europeia de Mulheres Ativas na Família, Madeleine Wallin, em sua participação no documentário Com Licença, todos temos de lidar com o indiscutível fato de que as crianças precisam de cuidados. “Não podemos dizer que existe uma melhor forma de fazer, mas sabemos que precisamos de apoio. Nem todos precisam de apoio financeiro, mas alguns sim. Atualmente, 22% dos pais solicitam seus dias de licença parental e são estimulados a isso: quem tiver a maior renda, seja o homem ou a mulher – mas geralmente é o homem –, ganha um bônus, chamado Bônus de Igualdade de Gênero”, relata. Ou seja, se ficar em casa cuidando dos filhos, o homem ganha mais do que voltando ao trabalho.

O exemplo é oportuno porque a licença maternidade puxa o carro para outras questões paralelas, igualmente importantes e muitas vezes mascaradas: as diferenças de gênero, em sociedades que perpetuam a cultura de que a mulher é a única ou maior responsável pelos cuidados domésticos e pela criação dos filhos, outorgando a ela uma licença exclusiva e mais ampla, e os problemas decorrentes de uma profunda estratificação social, na qual mulheres que buscam – com razão – uma vida mais equilibrada a obtém às custas da dor de outras mulheres, que precisam deixar suas famílias para cuidar dos filhos de outras.

Em sua contribuição para esta reflexão, o professor e filósofo Mario Sergio Cortella dá um passo atrás e lembra que o tema das mulheres trabalhando fora de casa, nas sociedades ocidentais, nem existia antes do século 20, quando não havia direitos trabalhistas na Europa. O que também não é motivo para condescendência. “Não há vantagem em descuidar. A empresa que não é tola, em vez de olhar a gravidez da mulher como um encargo, devia olhar como um patrimônio”, declarou. A seu ver, criar barreiras a uma maternidade mais completa, em que tenhamos um maior cuidado em relação a quem geramos, é uma perda para todos. “Não importa se é o pai, a mãe, temos que apoiar o cuidador. É preciso haver uma estrutura, partilhada no conjunto social (…) Cada um por si não funciona”, avalia.

De qualquer forma, foi muito recentemente que as pessoas começaram a olhar essas questões de um jeito diferente, a começar questionando um ambiente de trabalho que foi completamente formatado à luz dos homens. Mas a lógica ainda precisa ser transformada – invertida até. Mães e pais que assumem os cuidados de seus filhos estão fazendo um bem para a sociedade, e não o contrário. É também neste sentido que Laura Uplinger defende que a gestante seja celebrada, exaltada. E essa impressão deve passar também pelas empresas: que cada vez mais pais e mães tenham a oportunidade de acompanhar o desenvolvimento de seus filhos. Além dos evidentes benefícios afetivos e emocionais, isso poderá trazer – ao contrário do que se pensa – vantagens econômicas no longo prazo. De acordo com o presidente da Sociedade Brasileira de Pediatria, Eduardo Vaz, entrevistado no filme Com licença, se quisermos uma sociedade saudável, temos que oferecer as condições para isso: “É uma decisão econômica também. Ou você acha que a Suécia gosta de jogar dinheiro fora dando licença maternidade de 1 ano e meio?”

Enquanto as políticas públicas brasileiras ainda patinam neste sentido, algumas iniciativas estão tomando ação para apoiar as mães que trabalham. A Rede Maternativa, que hoje tem mais de 10 mil mães cadastradas, surgiu em 2015 a partir de uma necessidade de suas criadoras, Ana Laura Castro e Camila Conti. Grávidas, em 2013, elas pensavam em como seria a vida no trabalho depois de terem seus filhos, uma vez que tinham o desejo de amamentar em livre demanda, mantendo-a o máximo de tempo possível, e manter o vínculo e a proximidade com seus filhos. “Tínhamos e temos a consciência de que o mercado de trabalho é extremamente despreparado para receber e lidar com as mães puérperas, por isso, decidimos que iríamos para outro caminho”, relataram.

Com uma estrutura composta de Rede para debates, conversas, apoio e compartilhamento de informações; Site, com mais de 1 mil empresas maternas cadastradas; Blog, com conteúdo gerado pelas mães da rede; Encontros, para formação em empreendedorismo e debates sobre o universo materno; e Fanpage no Facebook e Instagram (@maternativa), elas fomentam o empreendedorismo materno: uma definição que dá ênfase a um público feminino específico, materno e empreendedor, que enfrenta limitações e preconceitos – e cuja própria existência também questiona e subverte o modelo de trabalho atual.

“A maternidade faz as mulheres repensarem suas prioridades, seus objetivos e sua vida a longo prazo. O filho ou filha é esse elo com o futuro e todas as mães se sentem motivadas a provocar alguma transformação pensando na necessidade de um mundo melhor para eles”, afirmam as empreendedoras.

Se, desde o seu surgimento, ainda não há uma resposta ideal para a pergunta: Uma mulher pode trabalhar e estar com a família e os filhos ao mesmo tempo? talvez seja porque ainda não abrimos as nossas mentes para compreender que essa dicotomia não existe, apenas em nossa ilusão. E que, no mínimo, ela faz parte de um universo muito maior: de justiça e equalidade para todos neste plano. Quem sabe, pensando e agindo neste sentido, se encontre o merecido alento. Afinal, como professou Cortella, o futuro não será o que aguardamos, mas o que construímos.

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