Relato de parto normal após cesárea, em casa
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“O parto ativo não é uma novidade. É simplesmente um modo conveniente de se descrever um trabalho de parto e um parto normais e o modo como uma parturiente se comporta quando segue seus próprios instintos e a lógica fisiológica do seu corpo.” A mensagem, presente nas primeiras páginas do livro Parto Ativo – Guia Prático para o Parto Natural, de Janet Balaskas, já retira alguns véus de interpretação sobre esta prática ligada ao parto humanizado. O que está por trás dele a autora responde prontamente: a mulher está no controle do seu corpo durante o processo que, por sua vez, não torna-se objeto de uma “condução ativa” pela equipe obstétrica.

Janet é uma das fundadoras do Movimento pelo Parto Ativo, que tomou lugar em Londres em abril de 1982, reunindo 6 mil pessoas em prol do direito e da liberdade de as mulheres de movimentarem durante o trabalho de parto e darem à luz na posição de sua preferência – um momento-chave na história da obstetrícia na Europa e no mundo, reconhecido e apoiado por nomes como o médico e pesquisador francês Michel Odent e a ativista e antropóloga inglesa Sheila Kitzinger (recém-falecida), autores do prefácio e da introdução deste livro. “Transformar o processo de trazer uma nova vida ao mundo em outro onde a mulher se torna simplesmente um corpo sobre a mesa de parto em lugar de uma parturiente ativa é uma degradação da condição da mulher na função procriativa”, defendeu Kitzinger.

Bandeiras à parte, a leitura de “Parto Ativo” é como ter uma conversa agradável, instrutiva e esclarecedora com uma tia sábia ou amiga confidente sobre tudo o que você precisa saber sobre esta etapa da vida e nunca teve oportunidade de perguntar. Em primeiro lugar, a obra recupera a importância fundamental da posição e da movimentação da mulher para o bom desenvolvimento do trabalho de parto, mostrando que aí está uma das principais diferenças entre o parto natural, no qual as posições verticais são mais comuns (ajoelhada, sentada, em pé ou acocorada), e as práticas modernas de condução do parto, caracterizadas pelas posições horizontais ou recumbentes.

A esse respeito, a autora afirma o seguinte: “Com o passar do tempo pude observar que o desempenho ativo durante o trabalho de parto e a adoção de posições naturais, verticais ou agachadas são o meio mais seguro, prazeroso, econômico e sensato para a maioria das mulheres dar à luz. Não há interrupção da fisiologia normal do parto ou interferência com o equilíbrio hormonal e raramente acontecem depressão puerperal ou problemas com a amamentação e com a recuperação da mãe. A maioria dos partos, se bem conduzidos, deve transcorrer sem complicação alguma. Nenhum equipamento especial é necessário e o parto pode acontecer tanto em um lugar muito simples como na sala de parto de um hospital supersofisticado”.

Após esclarecer o conceito e trazer luz ao bom senso no que diz respeito ao nascimento, ela oferece uma série de elementos para ajudar as mulheres a redescobrirem o seu lugar no parto, aproximando-as de sua capacidade inata de dar à luz. A melhor forma de fazer isso, etapa à qual dedica boa parte do livro, é o preparo do corpo. Além de contribuir com as mudanças físicas, hormonais e psicológicas envolvidas neste período, uma atividade física regular, não desgastante e adequada pode proporcionar maior autopercepção e consciência da presença de um bebê no ventre.

Neste sentido, ela apresenta exercícios tradicionais da hatha yoga, porque seriam como um relembrar físico de movimentos com os quais acabamos perdendo contato. Estão dispostos em oito sequências diferentes, que contêm seis exercícios básicos e outros complementares, todos explicados de maneira clara e detalhada, contendo informações sobre a postura, a postura avançada e seus benefícios, e seguidos por figuras ilustrativas. A recomendação é que sejam praticados diariamente, em um período do dia em que tenha uma hora “só para você”, e desde o início da gestação (após a 12ª semana, a menos que o médico autorize antes), para aproveitar melhor seus efeitos.

Algumas vantagens explícitas: maior equilíbrio do tônus muscular, melhora da respiração e da oxigenação sanguínea própria e para o bebê, alívio de desconfortos físicos, combate à fadiga, melhora da circulação e do fluxo de energia (bloqueado pela rigidez muscular e por movimentos limitados), apoio na recuperação e retorno à normalidade após o parto etc. Segundo descreve a autora, se exercitar dessa maneira ajudará a mãe “a se conscientizar do milagre da criança que está ocorrendo dentro e através do seu corpo, de maneira que possa prover e receber seu bebê em um espírito de amor e comemoração”.

Toda esta preparação é muito importante para o trabalho de parto e o parto em si, em torno dos quais o livro é um manual completo e indispensável. O conteúdo percorre detalhadamente os três períodos: 1 – a dilatação ou abertura do colo do útero; 2 – período expulsivo que segue até o nascimento do bebê; 3 – o primeiro contato com o bebê e a eliminação da placenta, explicando o que acontece com a mulher e com o bebê em cada um deles e esmerando-se em descrever as sensações possíveis – “por mais difícil que seja”, como admite a autora – trazendo depoimentos vívidos e sinceros.

Surgem dicas valiosas que vão de “como ter certeza de que o trabalho de parto realmente começou” a “o descanso entre as contrações é realmente importante; portanto, seja cuidadosa e não hipervalorize a palavra ‘ativo’, gastando então todas as suas forças”. Destacam-se também as opções de posições para esses momentos, com fotos ilustrativas e as vantagens de cada uma, mas a autora ressalta que, se existe uma regra, esta é encontrar a posição mais funcional, eficiente e confortável para si mesma*. “A parturiente dever ser guiada mais pelos instintos, pelo seu bem-estar e suas necessidades do que pelas conveniências hospitalares e pela moda obstétrica”, recomenda Janet, sugerindo ainda: “Experimente todas nas semanas que precedem o parto com seu companheiro”.

Resultados de pesquisas que apontam as melhores condições para parir e dados históricos sobre os recursos já utilizados (da cadeira ou banquinho de parto à cama e às mesas de parto) acompanham a obra. Não faltam informações também sobre o puerpério e a amamentação, incluindo até um glossário de questões específicas e geradoras de dúvidas como: bolsa rota (amniotomia), data provável do parto (diferenças no período gestacional), insuficiência placentária, fator rhesus, icterícia etc.

Em uma sociedade em que o parto está completamente sob o controle das instituições médicas e na qual as grávidas são consideradas pacientes, como nos lembra Michel Odent na introdução, o livro “Parto Ativo” é um oásis informativo, que deve ajudar – e muito – a mulher em sua escalada da grande montanha… Uma analogia feliz que Janet Balaskas recupera para descrever o período de transição do parto: depois de subir bastante, no fim de uma ladeira íngreme, você se depara com uma parede rochosa e, embora saiba que está mais perto do que nunca, ainda assim pode cair em desespero. Este livro oferece os meios para que, neste momento, haja fôlego e coragem para transpor o desafio e chegar ao topo. Boa leitura!

*Obs.: Uma recomendação nossa, que o livro não menciona, é a “bola Suíça”, já bastante difundida e indicada para o período perinatal, da concepção ao pós-parto. Seu uso na gestação auxilia no equilíbrio e no alongamento muscular da mulher, aliviando desconfortos lombares e ajudando no alinhamento da coluna, o que também contribui para o posicionamento do bebê. No parto, é um importante suporte para realizar os movimentos ativos ou para posições de descanso e relaxamento.

 

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