Informação que transforma – Entrevista com Érica de Paula

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Em 2013, pela primeira vez um documentário nacional questionava os meios pelos quais estávamos nascendo no Brasil. Corajosamente, mencionava práticas médicas não respaldadas por evidências científicas e como isso afetava o nosso presente e o nosso futuro. Este filme é O Renascimento do Parto, de Érica de Paula e Eduardo Chauvet, que provocou uma transformação na maneira como a população em geral encarava o momento do nascimento.

Com luz em outra temática, O Começo da Vida, da Maria Farinha, lançado em 2016, faz o mesmo pela primeira infância (período dos zero aos seis anos), mostrando que esta fase da vida é definidora para o desenvolvimento humano e da sociedade e, portanto, merece uma mirada mais atenta do que tem tido até agora.

Não é difícil reconhecer a importância dessas causas, tratadas com seriedade e delicadeza em ambos os casos. Mas onde estaria o potencial transformador dessas produções? De que maneira elas conseguem ampliar a visão de mundo das pessoas? O que têm em comum? – passamos a nos perguntar. A resposta era a informação. Assim, alertas para este movimento, resolvemos dar um passo além e criamos a nossa própria Campanha, #CadaNascimentoImporta, para que todas as mulheres tenham o seu direito à informação de qualidade garantido e possam com isso se fortalecer e tomar as melhores decisões para um dos momentos mais importantes da sua vida.

Conversamos com a Érica, que atua como acupunturista, doula e educadora perinatal e foi responsável pela pesquisa, roteiro e produção do doc “O Renascimento do Parto”, e ela nos contou sobre os bastidores do filme e sobre a importância do crowdfunding em sua concretização. Produzido sem qualquer recurso público ou privado, o filme bateu o recorde brasileiro de doações coletivas, arrecadando mais de R$ 143 mil em 60 dias para chegar aos cinemas. Em sua avaliação, o sucesso da campanha revela “a urgente demanda por conteúdos de qualidade a respeito de um tema cada vez mais objeto de preocupação das mulheres e famílias brasileiras, especialistas e gestores de saúde, e de todos aqueles que buscam construir um país que respeite de forma integral os direitos humanos”.

Confira a seguir os principais momentos da entrevista e saiba o porquê apoiar a Campanha da Comparto em seu empenho para garantir o melhor nascimento a cada pessoa que chega ao mundo!

Comparto – O que a motivou a produzir o filme “O Renascimento do Parto”?

Érica de Paula: A ideia de realizar esse documentário surgiu no início de 2011, quando percebemos a enorme carência de informações audiovisuais de qualidade sobre o assunto parto e nascimento no cenário brasileiro. Como estávamos no período do Dia das Mães, tivemos a ideia de realizar um especial para televisão sobre parto humanizado, que em seguida se tornou um curta-metragem e logo depois um longa-metragem, pela abrangência e complexidade do assunto.

Comparto – Com quais tipos de apoio contou o filme e como foi desenvolvida a campanha de arrecadação?

Érica de Paula: Nós fizemos o caminho inverso de todas as produções. Normalmente, consegue-se o recurso e depois a produção é iniciada. Nós tínhamos pressa, éramos iniciantes nesse universo do cinema e começamos a percorrer todas as etapas de forma independente, para não ter que passar pelas burocracias envolvidas em recursos públicos e nem ter o corte de conteúdo do filme submetido a interesses de terceiros. Sempre acreditamos que o recurso iria sair em algum momento, até que o filme ficou pronto, e os recursos não poderiam ser retroativos. Fomos bancando as contas que apareciam e quando nos demos conta já estávamos na etapa de lançamento. Foi quando resolvemos iniciar a campanha de crowdfunding, que acabou superando todas as nossas expectativas. Em três dias arrecadamos a primeira meta de R$ 65 mil (suficiente para os custos de distribuição) e em sete dias a segunda meta, de R$ 110 mil (necessária para pagarmos muitas contas do filme que haviam sido bancadas por nós/autores). No total, foram arrecadados R$ 143.350,00 em 60 dias, nos ajudando inclusive com despesas do trailer oficial, contratação de profissionais e diversos outros custos relacionados aos eventos de pré-estreia. Isso mostra que o assunto é urgente no país, que a população acredita e apoia essa causa e que o movimento de humanização do parto e do nascimento no Brasil é muito  bem articulado e poderoso.

Comparto – Poderia descrever o impacto e os benefícios que um projeto como este, assim como outros relacionados à temática do parto e do empoderamento da mulher, podem trazer à sociedade brasileira?

Érica de Paula: Acreditamos no poder da informação, principalmente se essa informação vem corroborada com os dados científicos. Hoje, temos a nosso favor a Organização Mundial de Saúde, o Ministério da Saúde e todas as evidências científicas, que provam de forma cada vez mais contundente o quanto é melhor para mães e bebês respeitar aquilo que é fisiológico. O documentário levou informações de qualidade para muitas pessoas, quebrando mitos e paradigmas que envolvem o assunto. Ele foi capaz de provocar profundas reflexões sobre o que estamos fazendo com as mulheres e os bebês em uma etapa tão importante de suas vidas, e as repercussões que o parto tem em curto, médio e longo prazo. Também conseguimos sensibilizar os profissionais da área e as instituições hospitalares e governamentais sobre a importância de oferecer um novo modelo de assistência mais humanizado e baseado em evidências científicas sólidas.

Comparto – Como levar alguém que têm dúvidas a respeito ou não está atento à questão a apoiar uma causa como esta? Que mensagem deixaria?

Érica de Paula: É normal termos medo daquilo que não conhecemos. Estamos acostumadas a ter o controle de tudo, e a possibilidade de vivenciar um momento onde precisamos literalmente perder o controle e nos entregar parece realmente algo assustador. Mas, se conseguirmos ultrapassar a barreira do medo, podemos vivenciar uma experiência de absoluta plenitude e conexão com algo maior. Um parto que respeita o protagonismo feminino pode ser a experiência mais empoderadora da vida de uma mulher. Algo como: “se meu corpo deu conta de gerar e parir uma criança, significa que eu sou capaz de fazer qualquer coisa”. É importante ressaltar que grande parte do medo que as mulheres sentem do parto está baseado em mitos (do tipo: minha vagina vai alargar) ou em procedimentos que não são fisiológicos e são feitos de forma inadequada pelos profissionais (por exemplo, a episiotomia, corte na vagina feito sem indicação em mais de 90% dos casos). Por isso, defendemos que não basta o parto ser vaginal, mas sim humanizado, respeitando aquilo que é fisiológico e dando à mulher o protagonismo desse momento.

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