Informação que transforma – Entrevista com Érica de Paula
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Relato de parto humanizado
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O primeiro passo para a mudança está em reconhecer o ponto em que estamos, para depois definir para onde queremos ir – até mesmo quando se trata de nascimentos. Por isso, preparamos esta matéria sobre a situação do parto no Brasil.

“Só dilatei 2 cm e o bebê não poderia passar.” “O cordão umbilical estava enrolado no pescoço.” “Ele era muito grande, e a minha bacia, estreita.” “O bebê mudou de posição durante o parto.” É extensa a lista de motivos apontados como indicação de cesárea nos consultórios e hospitais Brasil afora. E tenho certeza de que cada um de nós conhece alguém que conhece alguém que já viveu uma história dessas, na qual antes ou durante o parto surgiram pretextos para levar a cabo uma operação cirúrgica inoportuna. E que, de tão naturalizada a situação, talvez nem tenha provocado grandes estranhamentos.

O que os médicos ganhariam com isso, por exemplo? Nesta linha de raciocínio e sem considerar motivos mais obscuros e particulares, no mínimo tempo e dinheiro. O processo de um parto normal ou trabalho de parto, em alguns casos, pode durar mais de 20 horas e, por princípio, deve acontecer a qualquer momento, no melhor momento – para a mãe e o bebê, e não necessariamente conveniente para o médico. O fato é que essas questões, somadas a falhas profundas na regulamentação do sistema de saúde no país, como sinalizou reportagem da BBC Brasil, acabaram colocando em segundo plano os partos normais.

“Os médicos passaram a organizar a agenda em função de fazer partos cesáreas, os hospitais deixaram de ter lugar para parto normal e ampliaram a UTI neonatal, e as mulheres passaram a entender o parto cirúrgico como uma tecnologia”, afirmou Martha Oliveira, diretora da ANS (Agência Nacional de Saúde Sumplementar) em entrevista à Folha de S.Paulo.

E foi assim que o Brasil chegou à posição de recordista mundial em um tipo de parto que, segundo recomendação da Organização Mundial da Saúde (OMS), deveria manter-se somente e no máximo em 15% das situações de nascimento.

De acordo com a Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz), instituição de promoção da saúde e do desenvolvimento social por meio do conhecimento científico e tecnológico, vinculada ao Ministério da Saúde, atualmente 52% dos bebês brasileiros, ou seja, mais da metade, nasce por via cirúrgica. Na rede privada, este índice é ainda maior, chegando a 88%. Além disso, dados da última Pesquisa Nacional de Saúde (do IBGE) mostram que mais da metade dos partos por cesárea (53,5%) acontecem com dia e horário pré-agendados, sem justificativa clínica adequada.

“O parto no Brasil passou a ser um ato cirúrgico ao invés de ser um evento fisiológico”, afirmou a obstetra Fernanda Macedo, em depoimento ao filme O Renascimento do Parto. Em sua opinião, esta é uma cirurgia maravilhosa, capaz de salvar vidas, mas que não deve ser usada de forma desnecessária, ou seja, fora do trabalho de parto. O médico Ricardo Jones é enfático ao avaliar que, neste modo de lidar com o parto das sociedades industrializadas, contemporâneas, o médico é o ator, o bebê é o produto e a mulher é um subproduto, secundário. Para chegar a este ponto, em sua avaliação, foi preciso produzir a ideia de que as mulheres seriam incapazes de dar conta deste processo por si.

Outra mensagem nas entrelinhas é de que o parto normal é perigoso, quando na realidade, o risco maior está na cesárea, afinal ela deveria entrar em cena somente em casos críticos, como prolapso de cordão (quando o cordão penetra no canal de parto antes da cabeça do bebê), placenta prévia (quando a placenta cobre o colo do útero, impedindo a passagem do bebê), entre outros. Após analisar 1,46 milhão de partos, o estudo “Morte materna no século 21”, publicado em 2008 pelo American Journal of Obstetrics and Ginecology, concluiu existir um risco de óbito dez vezes maior para a gestante em partos cirúrgicos. O índice é de 2,2/100 mil no caso das cesáreas e 0,2/100 mil no caso dos partos normais.

O risco da prematuridade (nascimento com menos de 37 semanas), por exemplo – motivo de mais da metade das mortes de bebês no país, que pode acarretar doenças respiratórias e dificuldade de mamar – é ampliado no caso das cesáreas programadas, uma vez que os partos são agendados para este período sem levar em conta a margem de erro da data de concepção. E também neste caso o Brasil aparece em um lugar desfavorável, segundo apurou o Fundo das Nações Unidas para a Infância junto com o governo federal: em 2010, o país ficou na 10ª posição entre as nações com maior prematuridade, com 11,7% de nascimentos prematuros.

Uma mudança veio a calhar neste momento crítico. Em junho deste ano, o Conselho Federal de Medicina determinou que a cesárea a pedido só pode ser feita a partir da 39ª semana de gestação. O documento prevê também que, caso haja opção pela cirurgia, a gestante deve assinar um termo de consentimento em que afirma ter sido informada sobre os riscos e benefícios da decisão (confira entrevista com o CFM sobre o tema). Para a pesquisadora Maria do Carmo Leal, coordenadora da “Pesquisa Nascer no Brasil”, da Fiocruz, a regra é muito importante e deve diminuir os riscos para o bebê: “Já aconteceu nos Estados Unidos e é bem-vinda no Brasil, onde 32% das crianças nascem com 37 e 38 semanas, uma quantidade alta se comparada a países desenvolvidos”.

O agravante que aparece nesta situação é a falta de informação que cerca o assunto. Para Érica de Paula, doula e educadora perinatal, co-produtora do filme O Renascimento do Parto, existe “uma demanda urgente por conteúdos de qualidade a respeito de um tema cada vez mais objeto de preocupação das mulheres e famílias brasileiras, especialistas e gestores de saúde, e de todos aqueles que buscam construir um país que respeite de forma integral os direitos humanos”. E o desafio é oferecer informação de qualidade para transformar esse cenário.

“Hoje, temos a nosso favor a Organização Mundial de Saúde, o Ministério da Saúde e todas as evidências científicas, que provam de forma cada vez mais contundente o quanto é melhor para mães e bebês respeitar aquilo que é fisiológico”, destacou em entrevista à Comparto. A seu ver, é preciso refletir sobre o que estamos fazendo com uma etapa tão importante da vida – um olhar para a mudança que vem ao encontro da Campanha da Comparto #CadaNascimentoImporta, que incide não apenas sobre os indicadores do sistema obstétrico no país, mas também sobre o lugar da mulher neste contexto.

O desafio proposto – amparado pela missão da Comparto – é reaver à mulher o seu poder essencial e exclusivo de gerar vida e parir, por meio do respeito à sua autonomia e do seu empoderamento com informação e uma rede forte de apoio. É um movimento que nasce da vontade de tornar mais humano um período da vida capaz de definir a existência do ser que nasce, da mãe que gera e de toda a sociedade ao seu redor.

** Conheça mais sobre a nossa iniciativa e junte-se a nós.

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