O nascimento e o futuro da sociedade

Relato de parto humanizado
9 de setembro de 2016
A amamentação desde as primeiras horas de vida
21 de setembro de 2016

Para transformar a forma como vivemos, precisamos nos voltar ao nascimento, período no qual é construída a nossa capacidade de amar.

Com seus dados alarmantes, o cenário do parto no Brasil e no mundo, na medida em que retrata a forma como temos nascido ou dado à luz, diz algo sobre a humanidade que escolhemos ser, agora e também no futuro. Talvez por lembrar-nos, em seu próprio gesto, os eventos mais temidos da humanidade – vida, morte e sexualidade –, nas palavras do obstetra Ricardo Jones, ou então da nossa ancestralidade e animalidade essencial, o nascimento humano tem sido objeto de intenso controle pelo homem, criando uma falsa sensação de domínio sobre o natural, com consequências – essas sim – imprevisíveis e devastadoras.

O médico e pesquisador francês Michel Odent tem se debruçado sobre este assunto nas últimas décadas. Para ele, o momento do nascimento, em todos os seus aspectos, é crítico no desenvolvimento da espécie e tem sido dramaticamente modificado pelo homem. Ampliando esta visão, a conferência internacional Healthy Birth, Healthy Earth 2016, se organizou em torno da profunda relação entre a maneira como as pessoas nascem e a maneira como tratamos o nosso ambiente. Segundo o co-realizador Elmer Postle, psicólogo escocês e diretor do documentário “The Healing of Birth”, um início de vida apoiado com consciência é crucial para o futuro da civilização e da Terra.

“Quando nós exploramos e desenvolvemos a nossa capacidade de acolher e amar a geração seguinte, descobrimos integridade, relacionamento e o desejo de cuidar do nosso planeta”, diz, na apresentação do evento.

Muito antes de nós, nas sociedades pré-agriculturais ou mesmo pré-industriais o nascimento era algo completamente diferente, e simples. “Sempre houve uma única tendência ao parir: estar perto da mãe”, afirma Odent. “Bastava saber que não estaria longe a mãe, a tia, a avó ou alguma figura maternal, diante da qual não nos sentimos tímidas, que nos protegesse da presença possível de um animal ou de um homem que poderia estar rodeando o local.” Ao longo do tempo, porém, o parto foi sendo socializado, passando a envolver a presença de homens, médicos e, com o avanço da tecnologia, máquinas também.

“Esquecemos que a ocitocina é um hormônio tímido”, observa Michel Odent, referindo-se ao principal hormônio liberado pela mulher durante o trabalho de parto, que soma uma função mecânica – ajudando a contrair o útero para que nasçam o bebê e a placenta e a contrair os dutos mamários a fim de liberar o leite materno – e uma função comportamental, que ainda está sendo estudada, mas já se sabe ter relação com o fenômeno da vinculação entre mãe e filho.

Para o pesquisador, a história da humanidade chegou a um ponto crucial, no qual a dominação sobre a natureza atingiu limites extremos. Se até recentemente uma mulher não poderia ter um bebê sem liberar um complexo coquetel de “hormônios do amor”, hoje isso se tornou possível com o uso da ocitocina sintética. Ainda não se pode determinar as consequências a longo prazo do uso deste fármaco, mas certamente produz diferentes efeitos: ao ser injetada, não alcança os receptores cerebrais como a ocitocina natural, liberada pela glândula pituitária, não exercendo portanto efeitos sobre o comportamento. Além disso, é liberada de forma contínua e não pulsante, como o hormônio natural, necessitando de doses muito maiores.

“Chegamos a um tempo em que, em nível planetário, a maior parte das mulheres não dá a luz por elas mesmas”, constata Odent. “Isso significa que podemos tornar os hormônios do amor redundantes, inúteis, no período crucial em torno do nascimento. Isso é inédito na história do nascimento e provavelmente novo na história da humanidade.” Uma vez que decidimos que “não precisamos impregnar nossos cérebros com esses hormônios do amor”, diz ele, e que por isso as mulheres não conseguem mais liberar sua ocitocina natural, o nosso condicionamento cultural e necessidade de controlar a natureza precisa ser revisto, e deveria estar na primeira página da agenda planetária.

Enquanto não temos respostas exatas sobre como realizá-lo, as informações científicas que temos à nossa disposição tornam isso possível. Criado por Michel Odent, o banco de dados Primal Health Research cumpre esta função ao explorar as correlações entre o “período primal” (vida fetal, perinatal e um ano após o nascimento) e a saúde e traços de personalidade anos mais tarde por meio de material de pesquisa. “É inútil promover isso ou daquilo. Há séculos se promove o amor, e não serviu para que houvesse mais amor. O mesmo acontece com a amamentação e o parto natural”, diz ele. “Como estudante da natureza humana, posso apenas trazer informações. E as pessoas decidem o que fazer com elas.”

Precisamos da ciência para redescobrir, por exemplo, que a mãe é a primeira pessoa com quem o bebê precisa estar, pois, como acontece com os outros mamíferos, cria-se um apego imediatamente após o nascimento, entre outros benefícios fisiológicos. “Graças à ciência moderna, sabemos que o bebê tem que ficar com a sua mãe quando nasce, que o leite materno é a melhor fonte de alimento e que a mãe é a melhor incubadora que existe”, esclarece Odent. Podemos concluir então que cuidar do vínculo entre mãe e bebê é uma maneira de contribuir para a construção de uma sociedade voltada para o respeito à natureza e o amor ao outro.

Por meio de novas perguntas, vamos descondicionando o nosso olhar: Quais são as necessidades básicas das mulheres em trabalho de parto? Como se desenvolve a capacidade de amar? Podemos viver em harmonia com a natureza e outras criaturas vivas? Liberar-nos das crenças e costumes que interferiram na fisiologia do nascimento durante centênios, trazendo à tona a nossa condição mamífera, elementar, primeva, como é preciso acontecer em um impulso durante o trabalho de parto, é urgente para mudarmos o curso da sociedade. Assim, quem sabe um dia, em termos de civilização, não teremos que fazer tanto para redescobrir o que é essencial.

Vamos juntos transformar nossa sociedade através de uma forma mais amorosa de nascer?  Conheça e contribua para a campanha de financiamento coletivo da Comparto que pretende exatamente assegurar à mulher o acesso a informação para que ela faça escolhas conscientes acerca de seu parto. #CadaNascimentoImporta vai somente até 15/09!

Deixe uma resposta

https://www.netkart.org Στοίχημα paykasa