Os filhos dos outros, espelho de nós mesmos

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Como o resgate do senso de maternidade cooperativa pode transformar a história de uma sociedade

 

Quem não deseja o melhor para os seus filhos? Mas quem deseja o mesmo para os filhos de todos os outros? O provérbio “It takes a village to raise a child” (“É preciso uma vila para criar uma criança”, em tradução livre) e suas variações, cuja origem é atribuída aos povos africanos igbo e iorubá, reflete uma concepção de mundo da qual nos distanciamos a largos passos: a vida de uma criança é uma responsabilidade comum, que vai além do círculo familiar pequeno, passando pela família maior ou extensa, incluindo tios, avós e primos, até chegar à comunidade ao seu redor.

Há muitas razões para se pensar assim. Mas a principal delas talvez seja que o nascimento de uma criança não exerce impacto apenas sobre a sua família, mas sobre a sociedade como um todo. Como compartilhou a educadora italiana Vea Vecchi, no documentário O Começo da Vida, “cada criança que nasce é uma espécie de surpresa para a humanidade”. O próprio filme propõe ao espectador uma reflexão sobre o papel de todos no cuidado e no desenvolvimento de todas as crianças, “definidoras do presente e do futuro da humanidade”, nas palavras de sua diretora, Estela Renner.

É possível ainda estender esta ideia e enxergar as crianças como pequenos espelhos, capazes de refletir o estado de uma comunidade. Se elas sofrem, é sinal de que a sociedade está em sofrimento. Se elas se regozijam, a sociedade está no mesmo ponto. Em resumo, olhar para elas é como olhar para nós mesmos. Por isso, ao investir nelas, em especial no período da primeira infância, estamos investindo na própria sociedade. “Quando prestamos atenção ao começo da história”, declarou Raffi Cavoukian, fundador da instituição canadense Centre for Child Honouring, “estamos mudando a história como um todo… para melhor”.

Uma das bases políticas mais importantes no Brasil relacionadas à infância, representada pelo Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), incorporado à Constituição em 1990, levanta o argumento da responsabilidade compartilhada em seu artigo IV: “é dever da família, da comunidade, da sociedade em geral e do poder público assegurar, com absoluta prioridade, a efetivação dos direitos [das crianças e dos adolescentes] referentes à vida, à saúde, à alimentação, à educação, ao esporte, ao lazer, à profissionalização, à cultura, à dignidade, ao respeito, à liberdade e à convivência familiar e comunitária”.

Para aqueles que, por diferentes motivos, não se sentem implicados no que outras famílias fazem ou deixam de fazer com os próprios filhos ou até mesmo suspiram aliviados quando situações extremas atingem os filhos dos outros no lugar dos seus, a declaração do diretor do Center on the Developing Child, na Universidade de Harvard, Jack Shonkoff, pode servir como alerta: “A vida dos seus filhos, quando crescerem, será mais fácil pautada em quantas pessoas na idade deles estarão contribuindo ou sendo um peso para a sociedade”.

Nesta linha de pensamento, se dermos um passo “atrás”, no sentido de retomar e ampliar este senso de cooperação, chegamos à própria mãe, progenitora: “o primeiro exemplo de humanidade com quem a criança tem contato”, como pontuou o psiquiatra Stanislav Grof. Da mesma maneira que se requer uma vila para criar uma criança, os benefícios desta forma de vida são maiores ou menores dependendo do quanto se estendem também à mulher.

Portanto, envolvê-la em uma comunidade, na qual possa ter acesso às matriarcas (aquelas mulheres que transmitirão a ela conhecimentos anteriores) e a toda uma rede de apoio, assegura as condições ideais para uma gestação saudável e de qualidade. Como acrescentou a diretora do filme, em artigo publicado na Folha de S.Paulo, é dar a ela a condição de ser cuidadora.

Em termos práticos, isso equivale hoje aos grupos de apoio à gestante, aos cursinhos de preparação para o parto, aos coletivos femininos. Sejam recursos profissionais ou sociais, o importante é que esta mulher esteja cercada dessas possibilidades para uma gestação de cuidados, afinal, “o cuidado atrai um gesto de cuidado; e este é um ótimo exercício de cidadania”, lembrou outra educadora italiana, Simona Spaggiari, no filme O Começo da Vida.

Em tempos de isolamento, cultivar mecanismos de empatia – o sentir com o outro – é um belo exercício para a construção de um novo homem. Tudo tem a ver com todos. Ainda mais as crianças, um de nossos maiores símbolos de vida. E este esforço comum de encontrarmos e exercermos o nosso papel no seu desenvolvimento, desde a gestação e os cuidados com a família, enquanto comunidade global que somos, é uma forma de dividir a responsabilidade para poder compartilhar a alegria.

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