Pais, vocês fazem a diferença – parte 1

Pais, vocês fazem a diferença – parte 2
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Ainda sobre pais: 5 atitudes que ajudam x 5 atitudes que atrapalham em um parto
15 de agosto de 2016

– Depois de umas dez horas de trabalho de parto, já exaustos, a médica sugeriu de a minha esposa tomar um pouco de… de…. Agora esqueci o nome, mas é alguma coisa que faz a gente adormecer, para ela descansar e depois voltar com força total para o expulsivo.

– Levou um tempinho para ela engravidar. Teve até que tomar um… um… hormônio, será? Bem, uma coisa que, segundo a médica, poderia aumentar a chance de termos gêmeos. Imagina!

A hesitação ao relembrar nomes e outras prescrições não diminui em nada a riqueza do relato feita por pais que acompanharam de perto o parto humanizado de seus filhos. Fica evidente o registro emocional gerado pelo envolvimento no trabalho de parto, que às vezes anos depois de acontecerem, permanecem vivos na memória deles. A participação paterna, como afirma a doula e naturóloga da Comparto, Raquel Oliva, é fundamental não apenas na forma de presença em consultas médicas e no apoio logístico, que são extremamente importantes, mas se estende também à disponibilidade emocional e afetiva para tudo o que está ao redor deste momento de vida.

“A gente costuma dizer: a doula conhece de parto, mas o marido conhece da mulher. Por mais que a doula esteja lá para ajudar na hora do parto, é ele quem mais conhece o que ela gosta, o que não gosta, qual o estilo dela…”, esclarece Raquel. É por isso que o pai também é doulado, recebendo informações sobre as fases da gestação e o trabalho de parto, incluindo o que se espera dele em cada etapa, e suporte emocional, contemplando na medida do necessário suas expectativas e ansiedades. “É um apoio que vai muito além do clínico”, explica. Muitas vezes, quando a mãe já está segura de sua escolha, acontece de o pai se engajar ainda mais na preparação, chegando a ser o primeiro a considerar um parto doméstico, por exemplo.

Ainda são diminutos os registros demonstrando o impacto da paternidade no nascimento e na vida dos filhos e das mulheres, mas no ano de 2015 o Instituto Promundo lançou a pesquisa A situação da paternidade no mundo, que levanta dados e reflexões sobre a sua influência em quatro questões relacionadas: trabalho não remunerado em casa, direitos reprodutivos e saúde materna, neonatal e infantil, envolvimento no cuidado e violência contra crianças e mulheres e desenvolvimento infantil.

“As relações pai-filho/a, em todas as comunidades e em todas as fases da vida de uma criança, têm impactos profundos e abrangentes sobre as crianças que podem durar por toda uma vida, sejam essas relações positivas, negativas ou inexistentes. A participação dos homens como pais e cuidadores também é de extrema importância para a vida das mulheres e afeta positivamente a vida dos próprios homens”, expõe o relatório.

Por mais que, segundo este estudo, as mulheres do mundo ainda passem de 2 a 10 vezes mais tempo cuidando de uma criança ou pessoa mais velha do que os homens e representem atualmente 40% da força de trabalho remunerada, alguns exemplos de cuidado paterno diário dão uma dimensão da influência positiva que eles podem representar na vida de seus filhos, mulheres e mundo ao seu redor. Com essa proposta, aproveitamos o Dia dos Pais para dar voz a duas histórias de homens que, por meio do envolvimento no parto humanizado e do exercício de uma parentalidade ativa, estão contribuindo para essa mudança:

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O publicitário e produtor audiovisual Beto Padreca, responsável pelos vídeos campanha da Comparto, narra com ares de saga sua experiência de paternidade, desde que ele e sua esposa, a fotógrafa Adriana Trevisan, decidiram engravidar, passando pela emoção de receber o exame positivo, até o parto e agora a criação de suas filhas, Malu (3 anos) e Emília (3 meses). Eles conceberam a possibilidade de um parto humanizado meio por acaso, quando uma amiga indicou um curso no GAMA (Grupo de Apoio à Maternidade Ativa). “Achei que seria um curso de preparação de pais, algo mais geral, e fomos juntos, naquele sábado, sem fazer muita ideia”, conta ele, que acabou encontrando um curso sobre parto humanizado. “Foi um divisor de águas.”

A partir de então, os pontos foram se ligando naturalmente. Primeiro, ele e Adriana foram conversar com a médica que já fazia a acompanhava no pré-natal para saber sua opinião sobre um parto normal. “Lembro de ela ter perguntado para Dri: ‘Você aguenta dor?’ Só por essa pergunta a gente soube que precisaria procurar outra pessoa”, relata Beto. “Na realidade” – ele ajusta a fala – “se a Dri estivesse confortável com ela, eu respeitaria a decisão, afinal o corpo e a gestação são dela. É ela quem precisa se sentir segura com a equipe. Essa era a minha principal preocupação”.

Beto relata o primeiro parto, que aconteceu em 2013, como se houvesse sido ontem. “A evolução foi tranquila, a gente ficou em casa até o último momento. O trabalho de parto ritmado começou à meia-noite. A doula chegou às 2h e ficou com a gente até às 3h, quando saímos rumo ao hospital, onde chegamos às 3h15, e a Malu nasceu às 3h37. Foi muito rápido!” No enfoque de Adriana, ele fez a lição de casa certinho. “Nossa doula, a Raquel, ensinou massagens e tudo o que ele poderia fazer para participar do parto. No dia mesmo, quando o bicho pegou, ele preparou todo o esquema: acendeu velas, colocou música, preparou um chá. Estava lá para fazer acontecer.”

A experiência positiva inclusive motivou Beto a repensar, para o nascimento de sua segunda filha, seus medos de um parto domiciliar. “Eu temia pela segurança do bebê e da Dri. Queria ter toda a infraestrutura caso acontecesse alguma coisa. Mas depois vi que o mais conturbado de todo o processo tinha sido a transferência até o hospital.” Adriana reconhece a mudança: “Ele estava bem pé atrás, mas quando viu que era o que eu queria foi nas consultas e tirou todas as dúvidas para se sentir mais seguro. Cada dúvida que tirava, era um muro que caía. E estava lá, comigo, me apoiando o tempo todo”.

O envolvimento de Beto, como revela Adriana, fez muita diferença no momento do parto, promovendo uma aproximação entre eles, e continuou fazendo no dia-a-dia. “Eu estava um pouco tensa com o pós-parto. Como a gente trabalha muito em casa e estava em uma fase de ponta-cabeça, eu ficava pensando como seria quando ela nascesse. Pegava muito no pé para ele fazer a parte dele e não deixar as coisas espalhadas, mas quando ela nasceu ele assumiu tudo, a casa, os cuidados comigo, sem que eu precisasse falar nada.”

Beto acredita que isso pode ter relação com a forma como foi criado pela sua família, que já comporta uma paternidade mais ativa e não obedece aos padrões patriarcais tradicionais. “É natural que o pai ainda seja a figura que ajuda e não participa realmente. ‘O paizinho está ajudando?’, é uma pergunta que já ouvi muitas vezes”, observa, lembrando do blog Paizinho, vírgula, que estabelece uma troca muito interessante e bem-humorada entre pais, em torno de temas como criação com apego, disciplina positiva e parentalidade consciente.

“Estamos muito doutrinados a deixar com a mãe. E somos nós que temos que mudar isso”, reafirma Beto. Para ele, a diferença talvez esteja em não aceitar o que está dado. “A gente se questiona sobre o que está fazendo, nada é automático. Então, era inevitável que a gente seguisse por esse caminho: a Dri procurar a melhor opção para ela e para os bebês e o lance da educação… Tudo o que a gente está fazendo está relacionado. Erro muito também, mas estou tentando.”

Só temos a agradecer a experiência compartilhada, Beto e Drika!

Continue a leitura do nosso Especial de Dia dos Pais com a experiência de Luiz Fernando e Janaína e 5 dicas de atitudes dos pais que ajudam X 5 que atrapalham um parto humanizado.

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