Pais, vocês fazem a diferença – parte 2

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Pais, vocês fazem a diferença – parte 1
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Debaixo d’água se formando como um feto

Sereno, confortável, amado, completo

Sem chão, sem teto, sem contato com o ar

Mas tinha que respirar

Todo dia

Todo dia, todo dia

Todo dia

Todo dia, todo dia

(Debaixo D’Água, Arnaldo Antunes/Maria Bethânia)

 Foram 23 horas de parto. E de música. Uma delas, fresca na memória do pai, o jornalista Luiz Fernando Andrade Pereira, era Debaixo D’Água, com letra de Arnaldo Antunes e interpretação de Bethânia, que fala sobre a impossibilidade de uma vida submersa. O álbum todo, aliás, Mar de Sophia, fazia parte da playlist de sete horas que ele cuidadosamente elaborou, pensando no que sua mulher, Janaína Ricciardi Leite, gostava e no que teria a ver com aquele momento: água, ar, poesia. Alguma coisa zen, indiana. “Cabia tudo o que lembrava a nossa história, minha com a Janaína”, relembra Fernando. “Depois, a equipe elogiou: as músicas estavam ótimas!”

Outra lembrança marcante para Fernando, desta vez ligada ao olfato, é o aroma do óleo que a doula usou para fazer as massagens na Jana durante a gestação e no parto. “Um cheirinho relaxante, que vai me seguir a vida toda. Até hoje temos um vidrinho com o óleo, que usamos para fazer nosso filho dormir”, conta, referindo-se ao Igor, que completará um ano em 1º de dezembro.

Assim como acontece com muitos casais, a opção pelo parto humanizado não foi imediata para Luiz Fernando e Janaína. “Na primeira paternidade, seis anos atrás, fomos persuadidos a fazer uma cesárea porque a minha esposa estava com diabetes gestacional e a médica disse que não poderíamos esperar, pois o bebê poderia ganhar muito peso. Simplesmente não contestamos. E foi tudo bem, mas não participamos de nada em nenhum momento”, relatou Fernando. Quando planejaram a segunda gestação, tinham mais informações e ficaram sabendo que o caso de diabetes da Janaína poderia ser tratado com alimentação. “Se a gente soubesse que isso era possível, não teríamos feito uma cesárea. Mas valeram as duas experiências: aprendemos com a primeira para fazer diferente na segunda.”

Um grande incentivo para essa mudança foi a leitura do livro Parto com Amor, escrito por amigos do casal, Luciana Benatti e Marcelo Min, que narra a trajetória de nove mães – incluindo a autora – em busca do parto desejado. “Fizemos a leitura e, um pouquinho antes de procurarmos uma médica, fomos percebendo que ao nosso redor vários amigos tinham passado por partos humanizados. Não tivemos mais dúvida de que era o que queríamos”, compartilhou Fernando. A empatia com a médica, que ele descreve como surpreendente, foi outro sinal de que estavam no caminho.

Fernando participou de tudo: desde as consultas do pré-natal até a recepção do seu filho no momento do nascimento. “Estávamos em casa quando começaram as contrações, e eu fazendo de tudo: massagens, pegar qualquer coisa que precisassem (e precisam de muitas!)… Uma função meio periférica, mas estava sempre perto. Como já tinha criado uma relação muito boa com a médica, fiquei super à vontade”, descreve. Mais de dez horas depois, todos estavam muito cansados, e ele continuava preocupado em não transmitir nenhuma impressão de fragilidade: “Para mim, ser pai tem toda essa história de estar caindo aos pedaços e continuar firme, lutando!”. “Então, a médica sugeriu uma analgesia para Janaína adormecer e depois voltar com força total. Foi o que aconteceu. Estávamos juntos há 10 anos, sem contar o tempo de namoro, e nunca ouvi ela gritar como gritou: “Saaaaai, Igoooor!”

Segundo Janaína, como a mãe “sai muito da casinha” neste trabalho de parto, ter o marido ao lado, incentivando e dando força, foi importante para ajuda-la a se entregar. Na visão de Fernando, ela estava sentindo dor, mas extremamente consciente do que fazia. Foi quando chegou a sua parte, como tinham combinado. “A médica me chamou: sua vez agora. E tirei o Igor de dentro da Jana, com o cordão ainda enrolado no pescoço – que a médica me mostrou como tirar, com toda a simplicidade – e o coloquei no seio da Jana, e ele ficou ali um tempinho, mais de uma hora talvez, adquirindo noção de onde estava.”

Depois de ter vivido a experiência de um parto humanizado, Luiz Fernando diz que a sensação é a de ter optado por uma baita história, no lugar de uma cicatriz. Para Janaína, foi uma oportunidade de evoluir como casal, tornando-os mais unidos e companheiros. “O Fernando teve que ter toda essa coragem e estar preparado para fazer esse parto também”, reconhece. O ganho de saber que seu filho chegou ao mundo assim, acolhido pela mãe e pelo pai também, com muito amor, segundo ela, é para toda a vida. “Muda até mesmo a sua relação com o mundo. Você passa a repensar o que antes fazia de forma automática e o que veio fazer aqui.”

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