Parto humanizado, rede pública e planos de saúde

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O parto humanizado entende o nascimento como um evento fisiológico, em que a parturiente e o bebê realizam o trabalho em conjunto e são os protagonistas do processo. A fisiologia e a vontade do casal são respeitadas, e o profissional de saúde desempenha o papel de assistente, que atuará apenas quando necessária alguma intervenção clínica. O parto humanizado também tem sua pratica pautada na medicina baseada em evidencias e no compartilhamento de responsabilidades, sempre cabendo a equipe apontar possibilidades, assim como esclarecer os riscos e benefícios de cada intervenção.

Com métodos não farmacológicos, como massagem, estímulo a mobilidade, compressas, banho de imersão na banheira, apoio e outros recursos, busca-se promover alívio da dor e conforto para a parturiente, ajudando-a a vivenciar este o momento de maneira tranquila e segura. Para saber mais sobre este assunto, conheça o nosso e-book Medidas de Conforto e Alívio da Dor no Parto.

O parto humanizado pode ocorrer no hospital, em casas de parto e até mesmo no domicílio da família, caso não haja nenhuma contraindicação médica, de acordo com as escolhas da gestante e de seu parceiro. O menor número possível de intervenções são realizadas, sempre levando em conta a vontade e o bem estar da mãe e do bebê.

No SUS, o parto humanizado é uma realidade em pouquíssimos municípios brasileiros. Desde 2014, maternidades e hospitais públicos devem seguir diretrizes de atendimento humanizado, que incluem a utilização de métodos não farmacológicos e não invasivos para alívio da dor, técnicas de relaxamento e posicionamento da parturiente, clampeamento tardio do cordão umbilical, além de práticas de contato pele a pele entre mãe e recém nascido e a amamentação na primeira hora de vida, fortalecendo o vínculo entre mãe e bebê. Além do acompanhante assegurado por lei, também já é prevista a presença de doulas e obstetrizes no momento de dar à luz.

Embora o Ministério da Saúde apresente politicas públicas que estimulem este tipo de atendimento, ainda não há engajamento profissional e político suficiente para que esta seja uma realidade prática em todo o Brasil e, na maioria dos casos, o parto na rede pública ainda sofre muito com a violência obstétrica e falta de adequação dos profissionais a este cenário.

Na rede suplementar, a partir de agora, devem entrar em vigor práticas que também facilitarão o acesso das gestantes a este tipo de parto. A Justiça Federal definiu que a Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) deve estabelecer novas regras para os planos de saúde, em uma tentativa de diminuir o índice de nascimentos por meio cirúrgico.
Além de serem obrigados a informar, quando solicitados, dados sobre taxas de cesáreas dos médicos e hospitais credenciados, os planos de saúde devem aumentar a remuneração do médico que auxilia o parto normal: o profissional que acompanhar o parto normal receberá três vezes mais que o que fizer a intervenção cirúrgica. Como o parto normal pode durar dias, e a cesárea demora cerca de uma hora, o médico terá um retorno financeiro mais justo pelo seu tempo dedicado à parturiente.

Também deverá ocorrer o credenciamento de enfermeiras obstetras e obstetrizes, que poderão acompanhar partos de risco habitual sem a presença do médico. Algumas outras medidas deverão ser implantadas, como mudança na cultura médica acadêmica e adoção de políticas públicas de conscientização das gestantes, com divulgação de informações que ajudem a mulher a decidir pelo parto que julga mais adequado.

Assim, embora o parto humanizado venha sendo estimulado tanto na rede pública quanto na rede suplementar como estratégia para a diminuição das inadmissíveis taxas de cesariana do nosso pais, na prática, a única garantia de um atendimento respeitoso e coerente com as melhores práticas em obstetrícia continua sendo a informação e o conhecimento sobre todas as possibilidades do parto.

Torcemos para que, em um futuro não muito distante, o parto humanizado não precise nem mesmo ter um nome diferente de simplesmente “parto” porque será uma possibilidade garantida para todas as brasileiras.

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