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Por Tatiana Dias

Quando eu fui mãe pela primeira vez, me equilibrava entre o medo e a entrega. A gente mergulha em um poço que parece sem fundo. O mundo é perigoso. Cada dia era um turbilhão de dúvidas, de insegurança e, por fim, de descobertas.

Na gravidez da Helena eu tive pré-eclâmpsia, uma condição de saúde grave que coloca em risco mãe e bebê. Foi por causa dela que eu precisei interromper a gestação mais cedo através de uma indução, que me colocou em um trabalho de parto hospitalar completamente diferente do que eu queria e culminou em uma cesariana, que eu tentei evitar. Apesar de muito bem acompanhada pela minha doula, a Raquel, a queda dos batimentos me levaram à mesa de cirurgia depois de 10 horas de contrações.

Foi uma experiência que me mostrou, de um jeito perturbador, que nós não temos controle. Especialmente quando trazemos alguém ao mundo.

Entre o medo e a entrega veio a Catarina. Foi uma gravidez conturbada não apenas pela rotina de mãe e jornalista, duas atividades que muitas vezes são incompatíveis, mas pelas lembranças do que eu passei.

Eu tinha mais risco de ter complicações, eu tinha também uma cesárea anterior, que havia sido feita em um intervalo menor do que dois anos.

Ainda assim, por ter experiências prévias hospitalares desagradáveis, eu mantive o mesmo plano de ter a minha filha na minha casa. Tive medo, é claro. Mas eu fui com medo mesmo.

A parteira, Ana Cris, me disse que eu precisava me libertar da minha experiência anterior. Que eu deveria deixar essa gravidez ter sua própria história.

O obstetra, Bráulio, me explicou o que era a pré-eclâmpsia: por algum problema na placenta, ela fornecia menos sangue que o necessário para o bebê. Por isso, o corpo da mãe trabalhava mais – elevando a pressão – para garantir o suprimento. A mãe se sacrifica pelo bebê de uma forma tão intensa que seu corpo pode entrar em colapso.

Achei poético. Achei que fez sentido… E tive a certeza que isso não aconteceria comigo de novo!

Os meses se passaram sem que minha pressão se alterasse, me mantendo na cobiçada categoria de baixo risco – apta, portanto, para um parto domiciliar. (é claro, porém,  que dentro do sistema obstétrico convencional isso jamais aconteceria, mas essa é outra história.)

Eu estava de 38 semanas e quatro dias quando fui acordada com uma leve cólica de madrugada. Comecei a contar e percebi que ela vinha de dois em dois minutos. Entrei em trabalho de parto na minha cama.

Desta vez, a Raquel estava em outro parto. A doula substituta, Lúcia, chegou às 6h30. Eu já estava reclamando de dor. Letícia, a obstetriz, chegou às 9h e perguntou se poderia fazer um exame de toque. Eu disse: “claro”. Achava que estava super dilatada, tamanha a minha dor.

“Você está indo muito bem, querida”, ela disse, fazendo poker face. Depois eu soube: estava com 3 cm. Ainda bem que ela não me contou.

Fiquei muitas horas gritando na banheira montada na sala de casa e coberta com uma lona de construção. Depois eu fiquei sabendo: a vizinhança ligou para a porteira para saber o que estava acontecendo. Estava um frio tenebroso e minha casa estava com uma névoa de vapor. A água quente, os apertões na lombar e nas mãos de quem estava próximo eram o que aliviavam a dor.

De repente, a Raquel, minha doula que estava em outro parto, chegou. E a Ana Cris, a outra parteira, também. Tive o privilégio de ter duas doulas, meu marido e as duas parteiras incríveis. No final da dilatação a dor chegou no insuportável. Mas quando chegava no insuportável, ela piorava. E assim o trabalho de parto nos ensina a sempre estender os nossos limites. Por volta do meio dia, 8 horas depois do começo de tudo, eu comecei a ficar com vontade de fazer força. Fazer força fazia a dor passar. E aí tudo foi ficando um pouco menos insuportável. só um pouco.

Eu não raciocinava direito. Só queria que acabasse logo. Tava doendo muito, muito, muito, mas eu não cogitei interromper aquilo em momento nenhum.

Ana Cris me sugeriu que direcionasse o grito para dentro. Não sei como direito mas eu entendi, e aí a minha força começou a ser mais eficiente. Senti a minha filha descendo. Mas eu ainda não acreditava que estava acontecendo. Foram três horas de expulsivo e a Ana Cris sentenciou: “Tati, vem cá, vamos fazer essa bebê nascer.”

E me colocou na banqueta. Foram três forças em dois minutos. Eu lembro exatamente de sentir os cabelinhos dela. Até então, tudo parecia completamente irreal. Foi ali que eu entendi que estava acontecendo.

Foram três forças e eu pari minha filha na sala de casa. Ela nasceu com circular de cordão, foi o pai quem pegou, e chorou logo em seguida. Eu fiquei completamente incrédula e só agradeci a ela, por ter sido tão forte e tão parceira naquilo tudo que havíamos acabado de passar.

Depois, no vídeo, vi que tocava “força estranha”, no fundo, bem baixinho. Chorei.

Eu não lembro direito do trabalho de parto. Só me lembro que a cada onda de dor eu morria, depois continuava vivendo. Não tive medo. Não tive medo da minha pressão, do meu útero se romper, de ter hemorragia. meu único medo era não aguentar. Mas como só dependia de mim, isso não aconteceu.

Minha segunda filha nasceu num sábado a tarde em casa e a dor se transformou em êxtase. Nasceu maravilhosa, linda, num parto que hoje eu acho que foi tranquilo – no dia, é claro, foi caótico – e sem laceração. do jeito que eu sonhei, Diferente do que eu sonhei, do jeito que tinha de ser: um VBAC domiciliar depois de 1 ano e 11 meses de uma cesárea. Um parto que só foi possível com um marido que bancou tudo comigo, com uma equipe que se baseia em evidências, que não segue protocolos desnecessários e que, acima de tudo, me apoiou incondicionalmente. um parto contra a corrente, do jeito que eu gosto de ser.

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