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NASCIMENTO DA DORA

Ser mãe sempre esteve no meu horizonte. Às vezes ficava em dúvida se eu queria mesmo ser mãe ou se o meu desejo era ser gestante, porque a gravidez – ter um barrigão – sempre me atraiu. Eu e Renato vínhamos falando nisso há um tempo, eu completamente pronta, ele vacilante. Foi cedendo aos pouquinhos. Meu corpo pedia, é algo pra além do lógico, ponderado. Temos uma casa própria? Não. Estabilidade financeira? Ainda não dá pra dizer que sim. Mas o corpo pedia.

Tiramos férias no final do ano, e o destino era Tailândia e Vietnã. Decidimos que lá deixaríamos a natureza agir. E não deu outra, na volta, atraso de uma semana. Fizemos o teste, duas listrinhas. Eu na hora me desesperei. Ele, me olhava tranquilo, feliz, com sorriso de orelha a orelha. Pedi pra ele comprar mais dois testes, só pra confirmar. Batata. Estava grávida. Fomos dar uma volta no quarteirão pra deixar a notícia assentar.

A gravidez foi tranquila, feliz, acompanhando cada fase, cada etapa com muita serenidade. Escolhemos muito bem nossa equipe, trocamos de médico, de parteira, até chegar na posição mais confortável pro parto que eu queria. Detalhe: eu já sabia que teria um parto domiciliar desde antes de engravidar, pra mim não existia outra opção. Mas a escolha foi se consolidando aos poucos, com muita calma. Não tive enjoos, azia, sono demasiado, nada dos sintomas clássicos. Eu queria tanto engravidar que era como se meu corpo estivesse amando sua nova condição. Fiz yoga, meditação, hidroginástica na fase final (mas não gostei), estudei muito, li muito, fui às palestras do GAMA, fui muito à praia, entrei no mar, me conectei. Estava pronta. Eu e Renato conversávamos muito sobre o dia do parto, como seria, como imaginávamos, o que seria legal, o que não seria, parecia que planejávamos uma viagem sonhada. Dava um medo, mas aquele medo bom, dávamos as mãos e saltávamos juntos. O apoio dele foi incondicional – e essencial.

38 semanas e 6 dias. Acordei com cólicas bem esparsas, vinham junto com as contrações de treino, mas totalmente suportáveis. Fomos tomar café na padaria, ele decidiu cancelar um grupo de estudos que dava na 6a feira e ficou comigo. Demos uma volta, às vezes parava quando vinha uma contração, mas sabia que eram pródromos, e que poderiam durar dias. À tarde elas parecerem me deixar, e fiquei um tiquinho frustrada. O Rê foi na terapia, eu sentei na bola e coloquei pra tocar a música “Guaranteed” do filme Into the Wild, (um filme super importante pra mim) no repeat e chorei, chorei, chorei. Me despedi da vida como a conhecia, chorei de emoção ao pensar na minha filha chegando, ao pensar que estava tudo muito próximo. Depois dele voltar as contrações deram o ar da graça novamente. Resolvemos assistir um filme, e eu achei coerente re-assistir Into the Wild, já que a música havia me tocado tanto, e o sugestivo nome indicava o caminho que eu teria que percorrer. À noite fomos num rodízio de sushi, que estávamos ensaiando ir há semanas, e eu dei pro Renato uma aliança que tinha encomendado. Nós não casamos no papel, e até então eu usava uma aliança que ele tinha me dado na Tailândia, mas queria muito essa aliança comum antes da filhota vir. Voltamos pra casa, e as contrações deram uma re-engrenada.

O PARTO

Fui deitar 11h, 0h senti um líquido escorrer. Nada como nos filmes hollywoodianos, aquele mar de líquido, não. Um líquido discreto, clarinho. Pus um absorvente, voltei pra cama. Opa, tá saindo mais. Contrações começaram a pegar. Ficamos deitados os dois, cada vez que vinha uma, acho que a cada 7, 8 minutos, Renato me abraçava forte. Por volta da 1h já não dava pra ficar deitada, e comecei a me preparar. Pus um biquíni, o colar de Oxum que tinha separado, fui até o altar ecumênico aqui de casa (com direito a parada pra contração), acendi algumas velas, e pedi proteção. Fui pro chuveiro com a bola, e ligava o chuveiro quente a cada contração. A água caindo direto na barriga era uma bênção. Lembro de pensar que queria deixar o chuveiro ligado direto, mas que era muito desperdício de água, e a Cantareira está com níveis periclitantes, rs! Mal sabia eu, ainda não estava na partolândia. Começamos a cronometrar mesmo as contrações, quando vinha uma eu falava “Marca!”, e quando terminava falava “Foi!”. Isso já estava se mostrando um esforço enorme, porque era difícil definir esses limites, quando começava, quando terminava, era um trabalho que eu não queria fazer. Mas tinha que fazer, pra saber a hora de chamar a parteira. Decidimos que era hora por volta das 4h (isso sei hoje, na hora não sabia), quando estavam vindo de 3 em 3 minutos, durando algo como 40 segundos. Renato ligou pra Cris, que disse que chegaria em 1h. Ok, até aí as contrações eram perfeitamente suportáveis, eu só tinha que respirar fundo, me concentrar e apertar a mão do Rê (e como apertei, tadinho). Era hora de chamar a Jana também, minha amiga querida, inspiração de toda a história do parto domiciliar, que tinha topado me doular. Mas ela não atendia. O Renato deve ter ligado umas 20 vezes pra ela, vi que ele foi ficando nervoso. Eu não. No fundo eu sabia que o que eu precisava mesmo pra parir era de mim mesma. Tudo parecia em perfeita ordem. Ela chegaria quando fosse a hora certa. Além do mais, estava tão gostoso eu e o Rê, ele fazia massagem nas minhas costas com o óleo de arnica, segurava na minha mão, me dizia que estava acontecendo tudo aquilo que a gente queria. Pensando agora, talvez estivesse muito pra ele, muita responsabilidade, muita intensidade, e ele estivesse precisando de alguém. Pode ser. Mas eu estava bem.

Chegou a Cris. Olhou pra mim e disse “Oi querida! Bem-vinda à partolândia”. Muito discreta, veio auscultar o bebê, tudo ótimo. Pediu pra eu sair do chuveiro pra me examinar, fomos pra cama. Não me disse quantos centímetros estava, e eu pensava “Ok, deve estar meio longe, se não ela me diria. Mas eu queria dizer que estava tudo bem, eu não queria que terminasse logo, não tinha problema se estivesse longe. Inclusive falamos sobre isso algumas vezes, que seria frustrante pra mim ter um parto a jato, que queria ter tempo de entrar na banheira, de receber massagem, que queria curtir muito a experiência toda. Mas hoje acho que foi bom, saber pra que? Voltei pro chuveiro, fiquei mais um tempo, a Jana chegou. Achei que tinha dado um efusivo “Oooooooi”, mas depois ela me disse que não falei nada, mal olhei pra ela. Rsrs. Ela ficou comigo, massageou minha lombar, o Rê saiu, ficou um tempo fora. As contrações aí estavam bastante próximas, um minuto de intervalo apenas, e eu não conseguia descansar entre elas. Isso começou a pesar. Reclamei de cansaço, e me trouxeram um chá beeem forte de camomila com mel. Santo remédio, elas espaçaram um tanto, e eu conseguia até cochilar entre uma e outra, o que me deu uma boa renovada.

Eis que estou no chuveiro, manejando as contrações, dá um Paf!, e cai uma torrente de água fria em mim, du-ran-te uma contração. Afe, acho que esse foi o pior momento. O chuveiro queimou! Saímos do banheiro, deitei na cama, me jogaram um monte de toalhas e a Jana ficou fazendo muita fricção na minha lombar. Mas era difícil ficar longe da água. Por que eu ainda não posso ir para a banheira, catzo?? Parênteses: muito depois, fui saber que a banheira que a Cris havia trazido estava furada, e a Juliana, obstetriz assistente tinha ido até a casa dela na Granja (!) pegar uma outra. Fecha parênteses. Tentamos voltar pro chuveiro, fiquei um pouquinho, caiu de novo. Volta pro quarto. Trouxeram uma bolsa de água quente, que ajudou um pouco, mas não era o bálsamo da água. Logo, fui convidada a ir para a banheira. Ai, que alegria! Ao mesmo tempo, sabia que o momento de ir para a banheira era quando o colo estivesse com em torno de 7cm de dilatação, a chamada fase de transição, que é quando o bicho pega mesmo, até chegar aos 10cm. Como acabou sendo tudo meio de última hora, a banheira estava bem rasinha, e mesmo deitada, a barriga ainda ficava pra fora d’água. Pedi pro Rê entrar, pra aumentar o volume. A partir daí tudo virou um grande embaçado. Lembro de panelas de água quente serem jogadas, cada uma uma alegria. Lembro de colocarem música, a lista que eu tinha feito com tanto carinho. Lembro do Renato me abraçar forte em cada contração, e falar coisas no meu ouvido que eu nunca vou esquecer. “Vira bicho” era uma delas. “Nossa filha tá chegando” era outra. Foi muito importante. Lembro de descobrir que, a essa altura, vocalizar em alto e bom som um aaaaaaaahhhh, aliviava mais do que somente respirar. O corpo vai achando suas formas. Ninguém me disse nada, o que fazer, ou como, eu simplesmente sabia. Fui encontrando. E assim fomos indo. De repente, algo mudou. Ouvi a Jana dizer “Acho que ela está fazendo força”. Engraçado isso agora, ela percebeu antes de eu perceber, antes de se tornar racional pra mim. Mas era isso mesmo, a vontade era de fazer força. Cris veio me fazer o segundo exame de toque, os únicos dois de todo o trabalho de parto. Me disse “Elis, você ainda está com 8cm, se fizer força agora, pode dar um edema no colo. Respira cachorrinho como treinamos no yoga, e vai segurando”. Nooooossa, não vou poder fazer a força que o corpo tá pedindo? Caraca, como fazer isso? Respirei fundo, cachorrinho, segurei, segurei, segurei. Ouvi lá no fundo “Tenta respirar pelo nariz”. Fui, mais fácil. Devem ter sido umas 4 contrações assim (soube depois), na próxima aaaaaaaahhhh Criiiiis, passou! A cabecinha dela era uma presença inegável dentro de mim, diferente de antes, mais próxima. Passou do colo, para o canal de parto. Ela me responde “Então vai, confia no seu corpo, vai!” Meu deus, que força é essa? É uma força que vem de baixo, da terra, força vulcânica, explosiva, algo nunca experimentado. Pensei nas colegas do yoga que pariram antes de mim, pensei nas mulheres da lista de email, nas mães, avós, todas as parideiras do mundo, me senti ligada a todas elas, todas sentiram essa mesma força, transformadora. Impossível ser a mesma depois dessa sensação. Quando passava a contração, tudo passava, eu voltava a mim, à sala da minha casa, estava ali. Vinha a contração, e ela descia mais um pouco, eu flutuava por outros mundos, internos. Eu sabia o que precisava ser feito. Mais uma, mais uma, coroou. Passou a contração, e ela ficou ali. Eu de cócoras, apoiada na borda da banheira, segurando a mão da Jana (a Jana estava lá? Acho que sim). Ouvi a Cris lá no fundo “Mais uma e ela nasce, quando vier, pode deixar ela vir”. Lembro dela abaixando meu quadril, pra garantir que ela nascesse dentro d’água mesmo. Lembro também de falar pra alguém olhar bem a hora de nascimento (já pensando no mapa astral da minha pequena). Mais uma, e ela saiu. Que música tocava nesse momento? Guaranteed.

O que dizer desse momento? Tudo parou. Virei pra frente e me foi dado aquele corpinho, das mãos de uma mulher para outra mulher (ato ancestral!), minha filha, minha menina. Eu consegui. Eu pari. O melhor presente que eu poderia ter dado a ela, nascer com respeito, em silêncio, cercada de gestos amorosos, cuidadosos. No nosso tempo, filha. Peguei ela nos braços, nós duas, viajantes cansadas. Ouvi isso uma vez, que temos que tratar o bebê que nasce como um viajante cansado, prestando-lhe honrarias e o confortando, só isso. Que jornada! Parir um ser que, quem sabe um dia, parirá também.

Foi tudo como eu sempre sonhei. Obrigada Janaína, mulher bonita, que me ensinou tanto antes, durante e depois. Chegou na hora que era dela e esvaziou a banheira no muque! Juliana, doce e competente, carregou muita panela de água quente, pesou nossa filha pela primeira vez e ajudou o pai a cortar o cordão. Cris, parteira amada, habilidosa, amorosa e discreta, todas as qualidades que se quer de uma parteira. Você ainda muda o mundo, minha querida! Eterna gratidão a essas três.

Renato, parceiro incondicional. Desde o momento que topou essa loucura de termos um filho, até toda a construção do parto domiciliar, no começo reticente e desconfiado, mas sempre disposto a ouvir e mudar de ideia. Até que virou um grande entusiasta, contava pras pessoas com muito mais tranquilidade do que eu, tão certo estava de nossa decisão. E no parto, pariu comigo. Ele não aceita essa ideia, diz que quem pariu fui eu, mas eu sinto assim. Se manteve calmo (ou assim pareceu), segurou a minha mão, me abraçou, me disse palavras doces, organizou tudo e todos, me alimentou, me aconchegou. Com você, me sinto segura não só pra parir, mas pra construir toda uma família, toda uma vida.

Mulheres que lerem este relato, não deixem que tomem essa experiência de vocês. Encarem quaisquer medos que tiverem, olhem eles nos olhos, e confiem em seus corpos. Nós fomos feitas pra isso. Não confiem cegamente nos médicos que muitas vezes nos fazem acreditar que somos falhas, que isto ou aquilo está fora do lugar, que afinal, nem é tão importante assim, e você não vai estar perdendo muita coisa. Não é verdade. Deixo aqui a frase da Naolí Vinaver, parteira mexicana, no filme Renascimento do Parto “Nós mulheres sabemos parir. Nós mulheres gostamos de parir”

Elis Feldman

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