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8 de Maio de 2016, Dia das Mães. Seria a data prevista de parto da Larissa. Ela decidiu vir antes (38 semanas e 6 dias). Veio no tempo dela e é isso que importa. Mas já que essa data esperava que eu parisse, vou homenagear o dia parindo: parindo meu relato de parto.

Capítulo 1: A espera

3 anos e 9 meses de tentativas, um aborto espontâneo e uma cirurgia para investigar uma infertilidade sem causa aparente. Em Setembro de 2015 chegou o nosso positivo. Quanta alegria! A gestação foi um período mágico. Sem enjôos, azia, saudável, cheia de energia. Foram 9 meses de muita gratidão a Deus por ter o privilégio de gerar uma vida.

Para aproveitar a gestação de forma ainda mais saudável, fiz Yoga e era uma delícia ter essa horinha na semana, como um tempo só meu e da minha bebê.

Capítulo 2: O universo da humanização

Sou neta de mulheres que pariram lindamente. Minha avó paterna teve 15 filhos e a materna, 3. Todos de forma natural. Minha mãe também pariu. Nunca tive dúvidas da minha capacidade de ter um parto vaginal.

Nesses anos que se passaram antes do exame positivo, tive muito tempo para estudar sobre parto. Descobri o mundo da humanização no atendimento obstétrico e fui sugada para um universo único. Comecei a devorar milhares de artigos científicos, blogs, sites, livros e conheci pessoas e grupos que estavam dispostos a compartilhar conhecimento. Um novo mundo estava se abrindo para mim, um lugar onde as pessoas acreditam que “as mulheres sabem parir e os bebês sabem nascer“.

O Marcos, meu esposo, sempre relutou em falar de parto antes da gestação. Coisa de homem. “Engravida primeiro, depois falamos disso”. E chegou o dia em que assistimos juntos o Renascimento do Parto. Após o filme, uma porta se abriu no coração dele. Ao terminar, em lágrimas, conversamos sobre jamais permitir que eu sofresse uma cesárea desnecessária e que faríamos de tudo para nosso bebê ser recebido de forma respeitosa.

Capítulo 3: Os profissionais e a escolha de parto

Ainda em 2013, conheci por meio de uma querida amiga a Dra Priscila Huguet, ginecologista obstetra, humanizada. Foi ela quem me atendeu durante a situação do aborto espontâneo. Em uma situação triste como a perda gestacional, não fez intervenções desnecessárias, foi direta nas respostas e não me poupou da verdade. Ali ela ganhou meu coração. Com o positivo em mãos, Marcos e eu sabíamos que queríamos a Priscila como nossa GO.

Começamos o pré-natal e o caminho já estava sendo traçado para um parto humanizado, natural, sem analgesia, na Maternidade de Campinas. A Priscila nos recomendou os profissionais para montarmos a equipe. Antes da 20° semana já estava quase tudo certo.

Uma das pessoas indicadas pela Priscila foi a Dorothe. Como sou grata por ter tido a bênção de conhecê-la. Ela me foi recomendada por ser uma doula experiente. Em nossa primeira conversa nos deu uma aula sobre atendimento humanizado. E o mais importante: falamos como se daria na prática o meu parto, uma vez escolhido ser hospitalar.

E aí veio o baque. No parto que eu sonhava, eu iria parir na água, usaria bola e chuveiro e teria paz, sossego e voltaria para casa rapidinho curtir minha bebê com meu marido. Mas, diferente do que eu havia idealizado, a Maternidade de Campinas não tem estrutura para você ter um parto na água. Além disso, o traslado da minha casa até a Maternidade, de cerca de 40 min, se daria em pleno trabalho de parto, uma vez que é extremamente importante postergar ao máximo a ida para o hospital, evitando intervenções desnecessárias. E para fechar a cena do castelo desmoronando, eu só iria para casa depois de 48 horas de internação. Putz, chorei de tristeza. Mesmo com uma equipe incrível e super bem amparada, estava bem longe do tipo de parto que eu idealizava.

Lembro-me bem do sentimento quando saímos dessa conversa com a Dorothe. Pedi ao Marcos que participássemos juntos dos grupos de casais do Samaúma que se reuniam para se preparar para o parto e que estivéssemos com a cabeça aberta para ouvir sobre a opção do domicilar. Quando a Dorothe ouviu o que era o meu parto dos sonhos, ela foi bem direta: “você pode ter tudo isso, mas não na Maternidade. Você pode ter isso em casa”.

Como o Marcos já tinha como certo o parto hospitalar, falar do domiciliar gerava tensão. O domiciliar nunca foi uma opção para ele e diferente de mim, ele nunca teve problema com hospitais. Discutimos feio naquele dia. Ele se opunha totalmente à ideia de ter nossa bebê em casa. Alegava que já tínhamos decidido pelo hospitalar, que a equipe já estava fechada, e que não participaria do parto se eu insistisse na ideia.

Eu não poderia sem meu companheiro. E como vi que essa seria uma barreira, nunca mais toquei no tema. Nunca mais mesmo! E então, me conformei com a excelente equipe que me acompanharia em um parto hospitalar humanizado. Eu estava feliz com esse caminho e guardei bem quentinho meu sonho de um parto domiciliar.

Capítulo 4: “A porta precisa abrir por dentro” — nossa escolha pelo Parto Domiciliar

Ninguém pode ser convencido a querer um parto humanizado. Você precisa desejar isso. Você precisa sonhar com isso com todas as suas forças. Precisa ser mais forte que o preconceito das pessoas, que o medo dos seus familiares, que as lendas que contam sobre o caso da amiga da prima da vizinha.

A equipe estava contratada. Eu, muito saudável, era uma excelente candidata para um parto natural, sem intervenções. Estava tudo pronto para nosso parto humanizado hospitalar, na Maternidade de Campinas. E meu sonho do domiciliar continuava guardado, quietinho.

Por conta de uma agenda de treinamentos, o Marcos conseguiu me acompanhar apenas por duas vezes no encontro do Samaúma. Enviava a ele alguns textos que achava importante — mas não tocava no assunto de parto em casa. Falávamos apenas da fisiologia do parto, das funções da equipe, do puerpério.

“Ná, e se a gente optasse pelo domiciliar. O que seria necessário?” Eu quase explodi por dentro de alegria com essa pergunta repentina. “Meu Deus! Meu Deus! A porta abriu no coração dele!“ — e abriu sozinha, não precisei arrombar. 🙂

E com 31 semanas começamos a buscar informações para trocar o plano de parto. A Dorothe, nossa doula, estava viajando nesse período e não teríamos o apoio dela para tirar dúvidas imediatas e avançar com o plano. A Marcela Feriani, novamente, foi muito importante. Enviamos a ela uma série de perguntas e ela prontamente nos respondeu. A Aline Manfrim, uma pessoa querida que a maternidade colocou no meu caminho, também foi importante para nos ajudar nessa fase de dúvidas. “Por onde começar? O que ter em casa para o parto? Quais profissionais compõe a equipe? Precisa de neonatologista? Será que com 32 semanas ainda dá tempo de mudar os planos?…” Muitas perguntas, mas uma paz enorme nos seguia.

Com o retorno da Dorothe ao Brasil, comunicamos nossa decisão e ela nos apoiou totalmente. Nos indicou a equipe do Arte de Nascer — obrigada por isso! E mesmo aos 45 segundos do 2° tempo, as parteiras nos aceitaram.

E assim começamos uma nova fase da gestação. Estávamos esperando a Larissa e ela seria recebida em nossa casa!

Capítulo 5: “Vamos combinar o jogo?”

A decisão pelo parto domiciliar era consciente e baseada em evidências científicas de segurança e qualidade superior na forma de receber o bebê e cuidados comigo. Mas sabíamos que seria natural assustar as pessoas e não receber o apoio que precisávamos.

A falta de informação e a medicalização do nascimento afastaram as pessoas de acreditar que “as mulheres sabem parir e bebês sabem nascer”. O nascimento é um processo fisiológico. É preciso respeitar a Natureza e eu sou uma eterna admiradora da Criação Divina.

Sentia que parir naturalmente era uma responsabilidade, uma incumbência, como um rito de passagem para me preparar para uma nova fase. E manter todos esses sentimentos entre eu e o Marcos foi muito especial. Éramos cúmplices de um plano ousado, e de muito amor.

Compartilhei nosso segredo com a equipe, minha irmã e algumas pessoas que já estavam “convertidas” ao mundo da humanização.

Isso foi bem importante para preservarmos nosso momento. Anunciaríamos à família quando ela já estivesse em nossos braços — e de preferência, depois de termos dormido e cheirado bastante nossa cria, dentro do conforto do nosso lar.

Capítulo 6: O dia anterior

Quinta-feira, 28 de Abril. Esse seria o dia anterior ao meu trabalho de parto.

Eu estava com 38 semanas e 5 dias e há 10 já gozava da licença maternidade. Aliás, foi a melhor decisão pedir a licença com 37 semanas. A lei permite que a mãe peça com até 28 dias de antecedência ao parto.

De licença, estava finalmente 100% dedicada à maternidade. E nessa quinta-feira decidimos ir ao supermercado para abastecer a geladeira e terminar de comprar os últimos ítens para nosso PD. Compramos chocolate, azeitonas, biscoitos, gelatina, gatorade e até um vinho, se eu precisasse relaxar. Eu sempre me imaginei com muita fome durante o trabalho de parto.

Estava me sentindo ótima. Mesmo com um barrigão de nove meses, ajudei a na compra, embalar, carregar o carro, guardar. Sabia que quanto mais ativa eu me mantivesse, melhor para nossa bebê e para mim.

Capítulo 7: O grande dia chegou — Relato do parto

No último trimestre da gestação, dormir é luxo. Primeiro pela frequência de vezes que precisava urinar. Segundo, pelas inúmeras contrações de Braxton-Hicks, que comecei a ter desde o meio da gestação. A sábia Natureza nos prepara para o puerpério, nos fazendo acostumar com a privação do sono.

Dois dias antes já tinha tido pródromos bem sacanas, que me fizeram cronometrar contrações doloridas por três horas seguidas durante a madrugada. Mas após tomar um banho quente, reduziram e cessaram. Meu corpo já dava sinais que a hora estava chegando!

Seguindo as orientações das parteiras, nossa cama já estava forrada, caso a bolsa viesse a romper.

E assim foi.

“Marcos, acorda! Rompeu a bolsa!” Eram 4h40 am da sexta-feira. Senti o líquido quente me envolver na cama e em grande quantidade. Estava límpido, transparente. Quanta alegria! Marcos buscou uma fralda geriátrica para que eu conseguisse continuar me movimentando pela casa sem molhar tudo que eu tocasse. Rapidamente precisei trocar, pois o volume de líquido era grande!

Excitação, paz, alegria, calma… Uma mistura de sentimentos vai nos invadindo. Eu estava muito lúcida e sabia o que precisava fazer: descansar. O trabalho de parto poderia ainda levar muitas horas — ou dias. E era preciso poupar energia. Me lavei, me troquei, liguei o aplicativo para cronometrar contrações e fui me deitar. Consegui dormir mais algumas horas. Sentia contrações leves mas não ritmadas.

Às 5h00 am, mandei uma mensagem pelo Whats App para a doula se preparar que a bolsa havia rompido. E terminei a mensagem dizendo: “te mantenho informada. Vou dormir”. E dormimos.

Tomamos café da manhã e Marcos preparava nosso almoço. Fui caminhar no quarteirão para ver se a coisa engrenava. Por voltadas 11h, a Camila, parteira do Arte de Nascer, veio auscultar a bebê e checar como eu estava. Tudo perfeito. Recomendou o chá de canela e a usar as homeopatias, para ajudar a engrenar o trabalho de parto. As contrações continuavam vindo, mas ainda totalmente suportáveis e sem ritmo.

Pelo Whats App, ao longo do dia, mantinha contato com as parteiras e com a doula para acompanharem como as coisas estavam indo.

Às 12h, a Dorothe sugeriu fazermos acupuntura, para ajudar a engrenar. Concordei. Marcamos às 19h.

Ao longo da tarde, muito chá de canela, homeopatia e uma certeza: estava chegando a hora! Às 18h, percebi que eu não conseguiria entrar no carro e ir até a Dorothe fazer acupuntura. As contrações já estavam bem mais doloridas. A Dorothe se ofereceu para vir ficar comigo. Mas eu sentia que ainda estava cedo. Poderia suportar sozinha mais um pouco e poupá-la para a fase pior.

19h30 jantamos. E olhando no meu histórico de mensagens, vi que às 20h50 o Marcos usou meu celular para escrever “Dorothe, é o Marcos. A Ná pediu para você vir”. Nessa hora eu me lembro de já sentir bastante dor e mal conseguir conversar. Usei uma toalha em volta da lombar como apoio para me agachar e assim, aliviar a pressão das contrações.

Eu sempre lia nos relatos que “aí tudo ficou confuso”, ou “não me lembro mais dos horários”. Achava fascinante essa perda de noção do tempo. E eu vivi isso. As cenas seguintes eu consegui construir com a ajuda do Marcos.

A Dorothe chegou em casa por volta das 22h00 com seus equipamentos. Ao chegar, conversamos brevemente e se sentou para me observar por um tempo, contando a frequência das contrações e começando a me apoiar com a respiração. Logo me ofereceu a bola. Ahhh, a bola. Que coisa maravilhosa! Sentei e permaneci na bola até umas 23h30. Quicava na hora das contrações e me esforçava em manter o foco na respiração. A Dorothe usou uma compressa aquecida na minha lombar. Ahhh, a bolsa quente! Outro momento de alívio.

Fui para o chuveiro. Não sei se me ofereceram ou se eu pedi. Lembro de arrancar a roupa, e sentir alívio ao ficar sem calça, pois o elástico pressionava a lombar e parecia piorar as contrações. A Dorothe, toda cuidadosa, providenciou uma touca plástica para eu não molhar o cabelo. Era uma noite fria — a primeira da tão aguardada frente fria do outono quente que tivemos. Ahhh, o chuveiro! Que delícia a água batendo nas minhas costas!

E no chuveiro entrei na partolândia. Já não havia mais conversa. A casa estava um silêncio só. Nos poucos momentos que abria os olhos, sentia a presença de alguém, que me observava de fora do box. Ora a Dorothe, ora o Marcos, ora a Camila, que nessa hora já tinha sido acionada pela Dorothe e acabava de chegar. Ela me auscultou algumas vezes e para isso, entrava no box, se molhava. Não me fez sair da bola, não me fez mudar de posição e me incentivava a manter o foco. Ouvia e saía, como se nem quisesse ser percebida. Quanto respeito!

No chuveiro valorizei como nunca as aulas de Yoga que fiz. Ter controle da respiração e manter a calma na hora do pico da dor de cada contração foi o grande segredo para mim. A Dorothe repetia: “aceita a contração, ela vem em ondas, sente o pico dela e logo ela acabará”. “Cada contração tem começo, meio e fim e ela te faz ficar mais perto da sua bebê”. Palavras mágicas que iam me guiando a cada nova contração.

No chuveiro permaneci por cerca de 1h30. Ai, ai, espera a conta de luz! 🙂 Nessa hora, a piscina já estava cheia na sala. Sim! Eu teria uma piscina em meu parto, como sempre sonhei!!! O Marcos havia enchido de ar no início da noite e agora era hora de começar a colocar água quente.

Nas poucas vezes que falava — porque permaneci grande parte do tempo de olhos fechados e em silêncio — lembro-me de perguntar quando eu poderia ir para a piscina. E a equipe disse ainda precisar de mais água, que estava sendo aquecida no fogão e descia pela mangueira acoplada no chuveiro.

Os artigos que li mostravam que entrar precocemente na água poderia retardar o trabalho de parto, pois você acaba relaxando a musculatura. E eu não queria retardar nada, pelo contrário: queria fazer de tudo para avançar o mais rápido possível. Questionei a equipe se era cedo para entrar e elas apenas respondiam: “você pode ir a hora que quiser”. Então, era só esperar terminar de encher.

Nesse momento, não fazia ideia de que horas eram e nem o tempo que já estava no chuveiro. Também não sabia em que estágio do trabalho de parto eu estava, se era fase latente, ativa ou com quantos centímetros de dilatação. Sim, eu não sabia porque ninguém me tocou. Aliás, eu nunca soube o que era um exame de toque, nem durante o pré-natal e nem durante o trabalho de parto. Só me tocariam se eu pedisse. E para que saber? Imagina depois de já ter tido tanta dor no chuveiro descobrir que só estava dilatada 2 dedos? Eu iria me frustrar muito e aumentaria minhas chances de acabar implorando por anestesia — o que significaria uma remoção para o hospital. Era tudo o que eu não queria.

“Pronto, acabamos de encher. Quer ir para a piscina?” Ai, que medo! Estava tão bom no chuveiro, tive receio de ir para a piscina e não gostar. E batata! Ajudaram-me a sair do chuveiro, a chegar até a sala onde estava a piscina e quando entrei, uma contração muito dolorida veio. E foi horrível estar ali. Queria o chuveiro de volta. Estava tão quentinho lá e já tinha me acostumado a lidar com a dor no banheiro, naquela posição, daquele jeito. Quis sair da piscina, falei que não estava bom… e a sábia equipe me acalmou, pediu para eu ter paciência, que eu iria gostar, que ficaria bom. O Marcos se sentou ao lado da borda e me deu uma de suas mãos. Ahhh, essa mão! Foi meu suporte para as horas que se seguiram. Na piscina falta lugar para você se apoiar, apertar, puxar. E o braço do Marcos foi esse apoio que eu precisava.

Na piscina as contrações pioraram muito. A dor na lombar era muito intensa. Chegou um momento que o Marcos segurava minha mão, a Dorothe massageava as costas e a Camila a lombar — ou o contrário, não importa. Eram tantas mãos em cima de mim! Tudo para me apoiar a lidar com a dor. As massagens ajudavam em certas horas. Nem sempre aliviavam. Só me recordo de que a respiração era o meu desafio. Cada contração exigia um profundo e solitário nível de concentração, foco e dedicação. Aquela dor era minha, aquele era o meu momento. E eu precisava estar inteiramente conectada ao meu corpo para superar.

As contrações começaram a ser mais longas, cada vez com dores mais profundas na lombar. O braço do Marcos era fundamental para me segurar na hora que vinham. As horas iam passando e ele precisava descansar da posição incômoda e também fazer um xixi, beber uma água. E toda vez eu anunciava “está vindo mais uma” e sentia ele correndo para assumir seu posto. Agarrava sua mão e buscava na voz da Dorothe as orientações para respirar. Lembro de um instante pedir “Dorothe, me ajuda a respirar!” e ela respirava comigo, contando e estabelecendo um ritmo calmo, para eu não me perder e deixar a dor, que nessa altura era muito forte, me consumir.

Nesse momento, as contrações já estavam mais espaçadas. Eu conseguia relaxar nos intervalos, sentir a água morna cobrindo meu corpo, e me concentrar para estar pronta para a próxima onda de dor que estavam profundamente doloridas. Lembro de ter questionado a Dorothe se ela achava que ainda poderiam ficar mais doloridas. Com sabedoria, ela só me respondia para focar no momento. Não importava o depois.

E como num lance mágico, que tenho dificuldades de expressar em palavras, veio uma nova onda de dor. Mas essa foi diferente. Junto com a dor, meu corpo sozinho fez uma força longa e incontrolável. Eram os puxos! “Meu Deus, estou na fase do expulsivo!!” — eu não acreditava que já estávamos tão perto do fim.

“Dorothe, estou sentindo vontade de fazer força!”. E como a sensação era boa. Eu havia lido sobre parto orgásmico e achava incrível, mas não parecia tão fácil, exigindo uma concentração para poucas. Não vou dizer que o que tive foi um orgasmo, mas aquele puxo foi muito prazeroso! Sim, eu tive prazer durante as contrações do meu trabalho de parto. Tanto que ao terminar a sensação, eu só conseguia agradecer. Ainda nem tinha parido mas já estava cheia de gratidão à equipe, a Deus, ao Marcos, falei obrigada umas mil vezes. Estava extasiada e ansiosa pelo próximo puxo.

E assim foi. Mais algumas poucas contrações, talvez umas 6 ou cerca de 30 minutos depois, e pude tocar a cabeça da nossa bebê. O corpinho só saiu na contração seguinte, uns 2 a 3 minutos depois. Bom, não preciso explicar que ela ficou submersa, mas não se afogou porque ainda não respirava pelos pulmões, certo?! Na contração seguinte, seu corpinho saiu. Havia muito pouco sangue. Nossa princesa atravessou a piscina, sendo recebida pela Camila que me ajudou a me sentar e acolhê-la.

E os minutos seguintes foram de puro amor. Ela chorou um pouquinho, quase um miadinho. E depois o silêncio e a paz reinaram em nossa sala, como sempre sonhei, como era para ser.

A Adriana, a outra parteira, chegava nesse instante. Ela foi acionada assim que a equipe percebeu já estar no fim. Mas o expulsivo foi tão rápido que a Larissa nasceu antes dela conseguir fazer o trajeto Campinas > Indaiatuba.

Foram instantes de êxtase, de orgulho por termos conseguido, de paz e de alegria por acreditar na minha capacidade de parir. Faltam palavras para conseguir explicar melhor os minutos que se seguiram.

30 de Abril, 3h20 am nascia a Larissa. Do momento que rompeu minha bolsa até o momento final foram praticamente 24h. Foram horas de conexão com minha natureza, com a criação divina. Nascia a Larissa, nascia uma nova Natália, o pai Marcos e nossa família.

Na sequência ao nascimento, teve o momento em que a pequena mamou, dequitei a placenta e finalizamos o corte do cordão — que só foi cortado pelo pai depois de parar de pulsar. Fizeram a sutura das pequenas lacerações, comi uma sopinha que o Marcos fez, tomei banho e nossa pequena mamou mais.

A equipe deixou a nova família a sós com a bebê por um tempo enquanto limpavam a casa, esvaziavam a piscina, separavam o lixo. Até meus lençóis trocaram! Quanto mimo, quanto cuidado, quanto amor!

Como estava perdida nas horas, me surpreendi quando vi sol pela janela. A equipe permaneceu conosco até as 7h00 am.

E assim terminamos nossa jornada. Não consegui chorar na hora. Mas chorei muito depois. Fui inundada por um sentimento de gratidão. Que privilégio poder parir dessa forma! Fui amada, amparada, respeitada. Estávamos na nossa casa, com nosso cheiro, nos nossos lençóis, nossa comida. E agora éramos só nós, meu marido, meu cachorro, Larissa e eu.

E tenho uma gratidão eterna às enfermeiras obstetras Camila e Adriana, do Arte de Nascer. Obrigada por devolver o protagonismo do parto às mulheres! E obrigada à querida Dorothe, minha doula, por todo cuidado e zelo comigo. Sempre me emociono ao pensar na atenção que nos deram no pré, durante e pós parto. Obrigada!

E obrigada ao meu marido, meu amor, meu companheiro. Eu era só uma menina quando nos conhecemos. Eu 14, você 20. E nesses 17 anos juntos, nos tornamos homem e mulher, marido e esposa e agora, pai e mãe. Obrigada por segurar minha mão. Obrigada por acreditar que eu poderia parir e mesmo com seus receios, me apoiar a parir em casa. Obrigada por estar sempre comigo.

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