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Por Ana Claudia Scachetti Baldini

Começo a escrever este relato com minha pequena ao meu lado, dormindo o sono dos anjos e a paz que seu rostinho me traz me dá a força que preciso.

Não consigo contar só a história do parto da Stella… Então, quem quiser ler este relato, vai ter que conhecer o antes, o durante e o depois da sua chegada.

Há mais ou menos um ano um colega de trabalho me contou do parto de sua mulher, que havia levado 25 pontos e que sofria para se recuperar. Essa situação e a frieza com que o marido me contava, como se fosse tudo normal, me chocaram. Um outro colega estava com a esposa grávida, eu puxei ele de lado e disse: “você não vai deixar isso acontecer com a sua mulher, né?”. Eu tinha algumas conhecidas no mundo do parto humanizado e me empenhei a ajuda-lo a achar uma doula e outros profissionais que pudessem ajuda-los a ter um parto decente. O detalhe é que eu morava na Itália, não tinha filhos e nem referências sobre isso por lá. Passei o que sabia para meu colega e sosseguei.

Era início de março, logo depois vim para o Brasil e fiz outras viagens a trabalho. Meu marido ficou por aqui e quando voltei pra Itália veio a notícia: estava grávida! As tais conhecidas do parto humanizado não acreditavam que eu realmente havia buscado informações para uma outra mulher! Na verdade, acho que era mesmo meu sexto sentido…

Passei boa parte da gravidez sozinha, meu marido ia e vinha do Brasil por causa do trabalho, mas a distância não impediu que ele me apoiasse quando eu comecei a me convencer de que gostaria de ter um parto domiciliar. Fizemos juntos dois cursos na Itália, com obstetrizes que trabalham com parto domiciliar naquele país. Morávamos em Parma e também lá, mesmo com uma estrutura para atendimento desta modalidade de parto apoiada pelo sistema público de saúde, essa opção não é muito comum. Decidimos amadurecer a ideia e tomar a decisão final no Brasil, após conhecermos os profissionais pessoalmente.

Minha gravidez foi acompanhada por um ginecologista, com exames mensais que sempre foram perfeitos. Sem qualquer intercorrência, segui minha vida normalmente, incluindo muitas viagens internacionais a trabalho. Para aliviar os efeitos da gravidez: massagens, aulas de pilates e hidroginástica. Também líamos muito e em todas as referências o parto domiciliar aparecia como a melhor opção para gravidezes completamente normais como a minha.

O retorno ao Brasil foi marcado para a 34a semana. Preparamos a mudança, nos despedimos dos amigos e voltamos.

A partir da nossa chegada começamos a preparação para o parto no Brasil. Eu já estava em contato com uma ginecologista (Dra. Mariana) que segue a linha humanizada e uma doula (Raquel) e marcamos as

primeiras consultas com ambas para a primeira semana após nossa chegada.

Ironicamente, foi no curso de um hospital com foco nos benefícios da Cesárea que nos convencemos que o parto domiciliar era a melhor opção e continuamos a nos preparar para isso.

Nossa GO foi maravilhosa e, mesmo sabendo que seria apenas um plano B, nos apoiou na nossa escolha e continuamos as consultas alternando uma semana com ela e outra com a parteira escolhida.

A data prevista para o parto chegou e nada da Stella querer nascer…. As 40 semanas se completaram em 2/12/2014 e eu já estava bem cansada… Mas a nossa mudança ainda não tinha chegado e a Stella resolveu esperar que tudo estivesse no lugar.

A mudança chegou na sexta-feira e o dia foi muito agitado! Conseguimos arrumar razoavelmente as coisas, deixando o quartinho da Stella, o nosso e a sala livres para o parto, no final do dia, minhas costas me matavam, mas estava satisfeita e grata pela Stella ter esperado.

No sábado à tarde comecei a perder o tampão, bem de leve, nada da intensidade que eu esperava ainda… Na madrugada de domingo as contrações começaram, bem leves e irregulares, a ansiedade aumentou e era difícil dormir… Pela manhã tudo parou, mantivemos a rotina normal e fomos almoçar com a família.

No domingo as contrações voltaram, se intensificaram e pegaram ritmo e a doula resolveu nos visitar, as 11 da noite ela chegou. Lembro da alegria de ver que o momento estava chegando! Terminamos de montar a piscina, ligamos nossa playlist, diminuímos as luzes e começamos a nos conectar com aquele momento, com a Stella que chegava… A Raquel, nossa doula, muito sintonizada com tudo isso. Foi uma presença muito marcante, mesmo quando se esforçava pra ser invisível.

Ficamos neste embalo das contrações a noite toda… Buscando a posição, esperando a hora da Stella… Em algum momento a parteira chegou, não lembro quando, mas foi quando as coisas pareciam engrenar.

Pela manhã, as contrações pararam de novo e resolvemos descansar. Elas foram embora e ficamos sós.

Lembro que ficamos na cama e que as contrações iam e vinham, lá pela uma da tarde o André resolveu fazer o almoço. Eu não conseguia comer nada deste que o trabalho de parto começou e foi só ele sair e minha bolsa rompeu (que alegria!). Aí tudo ficou realmente animado! As contrações vieram fortes, ritmadas e com intervalos de menos de 4 minutos. Todo mundo voltou e acho que foi aí que eu entrei em alfa… Não sei se cheguei à tal partolândia, mas sei que em busca da posição certa, da contração que traria minha filha até mim, aquela tarde/noite não teve uma duração exata… O tempo parou ou ganhou um ritmo único.

Tudo daquele dia me dá saudade… Os nossos esforços, o quentinho da água da banheira, as massagens do André e da Raquel, a vela do meu chá de bênçãos acesa no cantinho, as músicas leves de fundo e da sensação da Stella chegando e de nós ali… esperando.

A Kelly, nossa fotógrafa, também estava lá, mas também era um fantasminha camarada acompanhando de longe…☺

Sei que doeu… doeu muito… Mas essa lembrança sumiu! Não é isso que importa… A poesia dessa espera hoje me parece maior que a dor.

Eu lembro que pensava na minha avó e seus 12 partos… E pensava que seria capaz… Mas não fui!

Em um determinado momento da madrugada, as contrações espaçaram de novo.

Eu estava exausta! Não conseguia comer e ainda vomitava com frequência…

Começamos a medir o progresso e faltava muito pouco: cheguei a 9 centímetros, mas não evoluía… O colo estava inchado, doía muito a cada contração e eu desisti. Pedi a anestesia e fomos para o hospital. Era umas duas da manhã.

Naquele momento toda a magia se foi… Eu voltei pra terra… Até fui secar meu cabelo! (devo essa lembrança à Raquel)

Eu tinha que terminar a mala, pensar em documentos… Não tinha tudo pronto porque não acreditava que chegaria esse momento… Mas chegou…

Foi só aí que vi a Ana Paula, nossa neonatologista (ou é só aí que me lembro, pois ela já estava a postos em casa há algum tempo). Lembro que com tristeza a abracei… No hospital contaríamos com uma outra profissional.

A viagem foi breve, mas difícil. Lembrando hoje parece que aquela meia-hora durou mais do que as 12 horas de trabalho de parto até ali. Foi muito desconfortável e tive umas 4 contrações muito doloridas.

Chegando no hospital, tudo estava organizado, a GO já tinha sido avisada e o hospital também, mas tem sempre o tempinho da burocracia… A Raquel, a Kelly e o André estavam lá pra me ajudar, mas as contrações continuavam e eu não aguentava mais. Doía muito mais agora que estava fora do meu sonho e tinha caído na realidade.

Liberaram o quarto e eu não achava mais posição… Lembro de um moço me olhando assustado perto do elevador enquanto eu não conseguia caminhar por conta da dor.

A Dra. Mariana chegou e, muito delicada, pediu licença para me examinar. Dava pra ver que ela sentia o meu desapontamento por estar alí e queria fazer o possível para me confortar e me ajudar pra que tudo fosse feito da melhor forma.

Ela sugeriu que usássemos ocitocina para ritmar as contrações de novo. Eu morrendo de medo…. Não queria mais dor do que já sentia e pedia a anestesia já de modo mais desesperado.

Por algum motivo não conseguiam aplicar a ocitocina, problemas com os equipamentos, sei lá… Depois de umas duas tentativas, fomos para a sala de parto e o anestesista chegou. Ah! Que alívio… Lembro de pensar “porque não fiz isso antes”! Talvez eu tenha até falado isso.

Fiquei sozinha um tempo com a Mariana e ela pedia para eu tentar empurrar quando viessem as contrações, me explicou que faltava pouco, mas que a Stella não estava na posição correta. Esses momentos são bem apagados da minha memória, mas acho que ela reposicionou um pouco a Stella. Em algum momento ela saiu e voltou com o André. Ele me falou que iam tentar mais um pouco, mas que era possível que fosse necessária a cesárea.

Ele se posicionou atrás da médica e vi na sua cara quando numa contração saiu muito mecônio e ele se assustou. Além disso os batimentos da Stella já estavam alterados e eu não quis saber mais. Era o momento de fazer ela chegar, a tal “cesárea necessária” era o que ia salvar o dia e, possivelmente, a vida da Stella.

A Stella chegou às 06:15 do dia 9/12/2014. Ela era bem grande: 54cm e 3925g!

Tudo foi respeitoso, na medida do possível, para uma cesárea. O André não pode cortar o cordão porque ela não nasceu tão bem e precisou ser aspirada, mas não saiu do seu lado e logo ela veio para junto de mim, um lindo momento eternizado pela Kelly.

Eu fui para a recuperação com ela e a anestesia não me deixava amamentar direito porque meu braço e seio esquerdos estavam amortecidos. Mas eu tinha colostro, muito colostro e me esforcei para oferece-lo a ela assim que possível. Briguei por isso! (teve uma confusão de informações, diziam que ela não poderia mamar porque tinha dificuldades de respirar, o que não era verdade e eu tive que chamar a neonatologista pra resolver tudo) Assim que ela mamou, caí no sono pela primeira vez em não sei quanto tempo. Acordei com ela alí do meu lado no bercinho e lá pelas 10 da manhã fomos para o quarto encontrar o orgulhoso papai.

Ficamos no hospital por duas noites. Fomos muito bem tratadas e liberadas sem qualquer intercorrência.

A primeira semana foi extenuante! A Stella mamava de hora em hora e e eu não queria ver ninguém, principalmente a mim mesma no espelho…

As noites eram longas e eu queria me conectar com meu bebê, conhece-la e entender o que poderia fazer para que ela estivesse saudável e satisfeita. Até aí, tudo normal.

No dia 16/12, comecei a me sentir melhor…. Saímos pela primeira vez, fomos fazer compras de Natal e comer Temaki, era muito bom sair um pouco de casa!

Mas, no dia 17/12, oito dias após a chegada da Stella, tudo mudou! Eu acordei com um sangramento muito forte, impossível de ser contido. Liguei para a Dra. Mariana e ela me recomendou que fosse ao pronto socorro.

Sempre mandona, tentei orientar o André sobre o que fazer: pegar a Stella, pegar as coisas da Stella, ligar para os meus pais… Tudo foi muito rápido e eu perdia muito sangue. Desmaiei pela primeira vez na porta de casa, o André teve que pedir ajuda aos vizinhos para pode carregar a mim e à Stella. Meus pais chegaram logo e corremos para o hospital.

Não vou contar os detalhes do atendimento, foi tudo muito triste e desesperador, mas eu achava que me dariam alguma coisa e eu voltaria para casa naquele dia… Saí do hospital 3 semanas depois!

Acordar na UTI na noite de Natal, sem o meu bebê, foi a coisa mais desesperadora que me aconteceu na vida. Muitas coisas difíceis aconteceram, a pior delas é que perdi meu útero e não poderei engravidar novamente, mas prefiro me concentrar em um fator positivo, pois acho que pode ajudar outras pessoas: a amamentação.

Meu marido sabia o quanto isso era importante para mim, e principalmente para a Stella. Quando eu fui para a UTI, em coma, minha família pediu para que continuassem tirando meu leite para que não secasse e assim foi feito. As enfermeiras foram maravilhosas e, quando acordei, me incentivaram a continuar tirando leite e eu me apeguei a isso com unhas e dentes. Eram os momentos de ordenha, as visitas da família e as fotos da Stella que me davam força para seguir. Ficar sem meu bebê era angustiante, as noites e os dias na UTI eram intermináveis.

Nosso reencontro se deu na véspera de ano novo, dia 31/12, quando fui para a enfermaria. Eu esperava uma grande emoção, mas foi bem diferente disso… Meu bebezinho já não existia mais. Duas semanas fazem muita diferença na vida de um recém-nascido e ela parecia não me

reconhecer, eu não era mais seu porto seguro e essa percepção me deixava triste. A gente se viu todos os dias no hospital a partir daí, mas faltava alguma coisa…

Só pude voltar a amamentar uma semana depois, quando fui para casa e esse sim foi um momento emocionante. Não tínhamos certeza se ela pegaria meu peito de novo, mas assim que chegamos em casa, ela com fome, eu ofereci meu peito e ela pegou. Parece que aí sim ela lembrou de mim e a gente conseguiu, através da amamentação, se reconectar.

E assim é até hoje.

Stella já está com 6 meses e, embora ainda seja muito dolorida a lembrança destas semanas de hospital, a vitória da amamentação e o nosso reencontro diário a cada mamada me traz sempre uma paz imensa e a certeza de que as coisas são exatamente do jeito que devem ser.

2 Comentários

  1. Ana disse:

    Raquel, querida!
    Tirando a parte complicada do pós-parto, essas lembranças ainda são deliciosas na minha memória… O trabalho de parto em casa ainda tem cheiro, tem som, tem o toque das suas mãos, tem calor humano!
    Serei eternamente grata pela sua atenção, pelo seu carinho…
    1000 beijos

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