Relato de parto natural – mudança de obstetra na reta final

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Por Luciana Lima_ parto da Bia

Pré Parto

Segunda-feira, 08/09, primeiro dia de férias. Acordo 5h30 da manhã pela 4ª ou 5ª vez. Normal, afinal, com 38 semanas de gestação não há piedade para minha bexiga. Acostumada, vou como um zumbi para o banheiro, e volto, meio dormindo para a cama. Só que ao subir, sinto a água escorrendo pelas pernas. Demoro um segundo para entender: a bolsa estourou. Acordo de vez. A bolsa estourou! Isso significa: é hoje!!! Acordei o Luís, naquela expectativa de quem não aguenta mais um segundo para contar a novidade: “a bolsa estourou!”. Ele demora um segundo e fala: “a Raquel (doula) disse que ainda pode demorar. É para voltar a dormir”. E ele virou na cama. E voltou a dormir! Analiso as opções: voltar a dormir não era uma delas. Liguei para minha mãe, que mora na erma cidade de Pinhal Alto, distrito de Nova Petrópolis/RS. Eu digo para ela vir devagar, que poderia demorar. Claro que ela me manda para o hospital. Mas eu sabia que deveria esperar até entrar em trabalho de parto e por isso fui arrumar o quarto que ela dormiria e fazer minha bolsa da maternidade. As 06H30, a vontade ainda era de gritar em carro de som “É hojeeee!” e empolgada como sou mandei e-mail para amigos só com essa frase. Avisei a doula também e fui tomar café. Lá pelas 8h30 Luís levantou, avisou no trabalho que estava entrando em licença paternidade, avisamos os pais e irmãs e fomos tomar café.

Como a doula havia recomendado bola de Pilates para incentivar o trabalho de parto, as 10h fomos para o shopping Bourbon comprar uma. No caixa da loja a vendedora ainda perguntou educada (para minha felicidade) “é para quando?” e eu respondi (para seu horror) “para hoje! A bolsa já estourou”.

Caminhamos um pouco na rua e voltamos para casa, mas 12h30 e a ansiedade já começava a bater – 7h de bolsa rota e nada de contração. O tempo foi passando e a tarde minha irmã, meu cunhado e minha mãe do aeroporto. Tive um desejo de organizar todos os CDs no armário e era isso que estava fazendo quando chegaram em casa. Sim, todos me acharam louca…. já estava completando 12h. Sou intimada a ligar novamente para o médico e confirmo a recomendação: esperar em casa até pelo menos 24h.

Bom, lá pelas 19h, já que estava irmã e mãe em casa, chamo sogra e sogro para jantar. Vou na padaria, aproveito a caminhada, e nada… pesquiso pela milésima vez o protocolo e confirmo que sim, o trabalho de parto pode demorar entre 24h e 48h sem intervenção, mas a partir de 24h é bom entrar com algo para evitar infecção. Depois do jantar sogros foram embora e vou para o quarto a luz de velas concentrar. Nada… subo e desço escadas de casa… uma contração ou outra… longas, loooooooooongas horas… e quando vejo que minha mãe está seriamente elaborando um plano para me sequestrar e levar para o hospital a força, percebo que não vou aguentar mais. Lá pelas 3h00 a cor do líquido também estava mudando (sim, a água continua a sair depois que a bolsa estoura) e finalmente rumamos ao São Luiz.

Parto

A Raquel me encontrou no hospital e foi comigo ao cardiotoco. Contei para médica que estava quase 24h de bolsa rota e esperaria pelo parto normal e ela me devolveu uma cara de “essa é louca”. No cardiotoco essa mesma médica acordou a Bia (minha filha por vir) que estava dormindo. E para acordar ela deu uma porrada na minha barriga que nunca vou esquecer a dor. Totalmente desnecessário. Os exames estavam normais e estava com 4cm de dilatação, com contrações esporádicas.

Tentei voltar para casa, mas já avisaram que não era mais minha opção. Ok… fui dar entrada nos papeis e aproveitei para respirar um ar puro. A noite estava fria e limpa, com uma lua cheia espetacular.

Voltei e fui encaminhada para a sala de pré-parto. Uma sala minúscula, com uma cama e uma poltrona e um banheiro com privada e chuveiro. Tudo o que escutava era uma britadeira altíssima de um lado e berros assombrosos da sala do outro lado e esperava que eu não chegasse a esse ponto (mal sabia eu…).

Como não estava conseguindo deitar, cedi o lugar para o Luís dormir e eu sentei na poltrona. Dali a muito pouco tempo a dor foi ficando mais forte e eu o acordei para marcar a contração. Nada ritmado, mas aos poucos fui perdendo a “consciência”. Só sentia. Sentia dor, sentia vontade de estar no chuveiro, sentia que não queria ficar com olhos abertos. A única vontade era gritar quando a dor chegava e não sei o que sentia direito no meio. Estava totalmente entorpecida.

Muitos berros depois, quando estava suplicando por anestesia, a Raquel chegou (eu havia falando para ela voltar para casa porque achava que ia demorar muito). Ela iniciou uma massagem que me trouxe o maior alívio que senti na vida. Entre chuveiro e massagens, ficou mais suportável, ainda que a dor fosse tanta que perdia parte da consciência. Tenho flashs de ficar na bola de pilates (como aquilo apareceu lá?), de andar pela recepção da ala, da água escorrendo, do alívio da massagem, da dor, dos gritos canalizados, de não conseguir processar quase nada do que me falavam. Lembro que em um raro momento eu senti vontade de abrir o olho e até conseguia focar na sala, fiquei lúcida e entendi tudo o que estava acontecendo. Falei com calma “voltei” e a Raquel me olhou e disse firmemente “Lu, não volta. Concentra no seu corpo”. Fechei o olho e apaguei de novo.

A enfermeira do hospital que estava me acompanhando estava desesperada. Lembro dela me chacoalhando, pedindo para eu me controlar. Ficava repetindo meu nome gritando, como se eu estivesse possuída toda vez que berrava. Lembro também da Raquel dizendo para mim gritar quanto precisasse para aliviar a dor. Até hoje dou risada com meu marido, pois soubemos que essa enfermeira saiu para dizer a minha família que eu estava “descompensada”.

Em algum momento a enfermeira ofereceu Oxitocina para acelerar o parto. Quando processei a informação (eu não conseguia entender quase nada do que me falavam e respondia, quando respondia, com muito delay) só conseguia pensar em uma coisa “vai doer mais?”. Ela respondeu: “vai, porque acelera”. Horror, como pode doer mais??? Só consegui falar “não”.

Não sei por quanto tempo gritei pedindo anestesia. Não entendi como me negavam. Meu corpo se abria e eu achava que iria morrer. Teve um momento marcante que pensei que preferia a morte do que viver aquela dor. Não existia racionalidade em mim, só dor. Mas quando finalmente meu médico autorizou a anestesia, a essas alturas minha obstetriz tinha chego e ela me pediu para fazer um ultimo exame de toque. E para minha surpresa: dilatação total! 10cm e Bia coroada.

Poderia tomar a anestesia ainda, mas a Raquel me incentivou a não tomar dizendo que dali para frente era uma outra dor, do expulsivo, muito mais suportável. Eu reparei então que de fato a dor já estava mudando, abrandando. Na verdade, parando para pensar, já estava quase sem dor. Ela perguntou se estava com vontade de fazer força. Parei para sentir o corpo e sim, estava. É isso! Ia nascer.

Eu queria muito ir para sala de parto natural do São Luíz, mas estava uma estava em limpeza e a outra consertando. Fui então encaminhada para uma sala operatória e teve muita correria. Eu lembro de estar preocupada do médico não chegar, pensar como seria sem ele, mas continuava longe de pensamentos mais racionais. Um homem na porta da sala com uma câmera na mão começou a falar e me perguntar coisas e aquilo me incomodou muito e acho que o expulsei. Não conseguia entender (depois soube que era o fotógrafo do hospital que havia autorizado… pena). Na sala, a Raquel e a Juliana (obstetriz) colocaram um lençol no chão e na ponta uma cadeira para parto de cócoras. Fui instruída a sentar lá e meu marido a me segurar por trás. Deveria fazer força somente quando sentisse vontade. É uma sensação bem particular e dá para sentir sim o vai e volta. Lembro que a porta abria algumas vezes e uma delas o médico entrou. Ele foi para um cantinho escuro da sala, só para observar. Ele já havia me dito que faria isso, pois quem faria o parto era eu mesma. Em algum dado momento aquilo parecia estar demorando demais, a força não adiantava tanto. A Juliana estava checando os batimentos cardíacos e disse que estava começando a cair e com essa informação eu comecei a “acordar” do transe… O médico se aproximou e com muita calma injetou algo em mim (Oxitocina) e começou sorridente a fazer algo que não entendi direito (depois ele contou que a Bia estava com cordão rígido no pescoço). Depois disso Bia nasceu num instante. Lembro da sensação dela saindo, de olhar para ela que rapidamente foi entregue a mim e comentar com meu marido quanto cabelo ela tinha. Não lembro do choro dela e jamais vou conseguir expressar o sentimento que me inundou, ainda meio entorpecida, quando ela veio para meu colo. Divisor de águas na vida.

Com ela no colo, não lembro como, me colocaram na maca. Senti o doutor começou a fazer alguma coisa em mim (mas que estava em segundo plano) e de repente saiu a placenta. Ele disse que iria fazer um único ponto e que estava ótimo.

Acho que a expressão que mais resume é que estava “abobalhada”. Acho que só conseguia rir, incrédula que cabia tanta felicidade em mim. Enquanto olhei para meu marido, a pediatra pegou a Bia e antes que desse por mim já estava no meu colo de novo. As pessoas foram saindo calmamente e ficamos eu, Bia e meu marido por um tempão. Bia não quis mamar. Exaustas, após 30 horas da bolsa estourada, eu e ela pegamos no sono juntinhas.

Sobre a doula, a querida Raquel da Comparto. Eu tinha muita dúvida, mas ela foi fundamental no preparatório e especialmente na hora do parto.

Ela foi a maior defensora do meu parto. Já no primeiro encontro ela confirmou o que eu imaginava: meu médico anterior era um cesarista disfarçado de defensor do parto normal. Depois explicou o bê-á-bá sobre parto para mim e meu marido e no dia anterior nos deu confiança para ficar em casa após rompimento da bolsa. Durante o parto, ela deu um “chega para lá” na minha mãe que estava me gerando muita (muita!) ansiedade, ela chamou o Luís “de volta” quando ele estava paralisado pela minha loucura (rs), ela me instruiu para “ficar” na loucura quando parecia que ia eu acordar, ela garantiu meu direito de gritar (yes!) e principalmente fez uma massagem no lugar certo, na hora certa e que aliviou muuuuuuito a dor. Muito mesmo. Meu parto seria muito mais confuso, dolorido e ansioso sem ela. Isso se fosse normal, porque sem ela poderia nem ser!

Sobre o médico, eu já estava com 34 semanas quando cheguei no Dr. Alberto Jorge Guimarães. Levei o Luís, o que foi ótimo porque ele também estava ansioso pela minha decisão do humanizado. O Dr nos recebeu de forma tranquila. Contou que foi um cesarista por muitos anos e que ao fazer uma pós (se não me engano) em parto normal, ele descobriu o que era parto de verdade. Que quem iria parir minha filha não era ele, e sim eu. Isso me marcou muito. Disse ainda “prefiro que você nem me veja na sala. Só vou me aproximar em caso de necessidade” e foi isso que aconteceu. Ele se aproximou quando estava um pouco demorado o expulsivo e sem falar nada desenrolou o cordão muito calmamente. E mesmo que ele tenha ajudado hoje sou muito orgulhosa de falar: eu que fiz meu parto! Outra coisa: ele deixou claro de antemão que se eu pedisse cesárea na hora ele não faria. Insegura, perguntei “e caso eu não consiga fazer parto normal?” e ele retrucou “por que não conseguiria?”. Enquanto eu pensava, após uma pausa, ele falou algo muito óbvio, mas que a gente esquece: “você nasceu preparada para isso. Toda mulher nasce preparada para isso.” Pois é, biologia básica… Apenas em casos muito raros seria necessária intervenção cirúrgica e se fosse esse o caso ele faria uma cesariana linda. Mas, via de regra, não tinha porque eu não ter um lindo parto normal. Isso me deixou tranquila e feliz com minha decisão.

Sobre a anestesia, ele também trabalhou um pouco a questão do medo da dor. Ele explicou o porquê a anestesia não era desejável: ela te “tira” do momento, não deixa seu corpo trabalhar propriamente no parto e que depois ameniza a explosão de prazer que sente. Ele me disse em consultório “100% das mulheres que tomaram anestesia nos partos que participei me confessaram depois que preferiam não ter tomado.” Se eu tivesse tomado, com certeza seria uma dessas. Agradeço muito a ele, a doula e a obstetriz por segurarem meu pedido de analgesia. Valeu cada grito! Por fim, lembra que eu falei que por um segundo queria morrer para não sentir tanta dor? Percebi que foi apenas por ter sentido plenamente toda a força que a dor é capaz de me dar, toda a loucura que o corpo embarcou para suportá-la, é que tive o privilégio de sentir por inteiro o prazer, alívio e felicidade de parir e o delicioso acalanto da intimidade do primeiro encontro com a Bia. Ah, e de bônus: meu corpo “calejou”, criando uma resistência impressionante para dor depois disso!

Passarei essa experiência para minha filha e para tantas amigas e colegas de vida, com muito orgulho.

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