Relato de parto: impactos da separação da mãe e bebê

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Nesta semana nossos artigos aqui no Blog abordaram o papel do pediatra ou do(a) profissional que recebe o bebê e presta os primeiros cuidados. Também falamos sobre os procedimentos iniciais pelos os quais o bebê passa (e muitas vezes não precisaria).

Hoje nos contamos a história do nascimento da Milena, filha da Patrícia e do Daniel. A Patrícia sempre soube do parto que queria e, quando engravidou foi atrás de um médico que atendesse partos normais, contratou uma doula e se preparou para a chegada da sua bebê. Seu parto teve alguns desafios, todos superados e finalmente Milena veio ao mundo pelo tão sonhado parto normal!

Patrícia não imaginava a importância de ter em sua equipe um pediatra humanizado, que permitisse a elas algo essencial: um primeiro contato prolongado. Leiam o relato dela na íntegra e sintam como algumas vezes é forte o trauma desta separação:

“Minha gravidez da Milena é muito presente em minha memória, lembro claramente de cada detalhe da minha gestação que foi desejada, planejada e muito amada antes mesmo de ser concebida. Planejei meu parto também com muito amor. No começo eu fui um pouco ingênua achando que seria fácil ter um parto normal, mas me enganei e a luta foi árdua. Descobri que tinha que defender o óbvio e quando achava que tinha conquistado tudo aquilo que eu gostaria, veio a vida (ou o homem e suas intervenções) e me trouxe uma lição bem dura.

Quando minha filha nasceu eu estava em êxtase, quase não podia acreditar que aquela pequena bebê tinha saído de mim e como eu a queria perto de mim. A primeira coisa que eu ouvi do médico foi que o cordão era curto e ela não chegaria até o meu peito. Ele então clampeou o cordão logo (sem meu consentimento) para que ela viesse até mim.

Ela ficou um pouco comigo, mas logo a levaram para os protocolos iniciais, ali mesmo no quarto. Cuidados desnecessários como o colírio de nitrato de prata, estica e puxa para medições e um manuseio nada delicado. Lembro de dizer ao meu marido que me deixasse e fosse cuidar dela. Eu era puro instinto.

Trouxeram-me-a de volta, ela tentou mamar, sem muito sucesso, mas o que importa nós duas estávamos nos conhecendo, nos cheirando, nos sentindo e nos olhando; fazendo aquilo tudo pelo qual esperamos desde a concepção.

Eu me sentia muito plena, quando, de repente, a pediatra do plantão diz que tem que levá-la! Para onde? Por quanto tempo? É minha filha! E, então, a levaram sem maiores explicações, além de que ela precisava ser observada pelo pediatra no berçário. Mesmo tendo nascido super saudável, apgar 9 e 10, com seus olhos arregalados, pretinhos e puxados. Não entendi nada.

A levaram e eu fiquei com lágrimas nos olhos e uma preocupação que jamais havia experimentado antes. Como ela ficaria sem mim? Cuidariam bem dela? Sentiria frio? Fome? Será que dariam outro leite a ela, mesmo sabendo que eu não gostaria? Era uma confusão de sentimentos, uma dor na alma. Eu só conseguia pensar nela, queria conhecer minha filha, estar com ela, cuidá-la e amamentá-la, mas eu naão sabia nem onde ela estava ou como estava e só ficava desejando que o tempo voasse e que a trouxessem de volta.

Me levaram para uma sala de recuperação pós anestésica (optei pela anestesia já com dilatação total). Esta sala era escura e fria e havia outras mulheres deitadas, caladas e abandonadas. Achei que ficaria por pouco tempo ali, já podia movimentar minhas pernas e toda a percepção do meu corpo tinha voltado, mas me enganei novamente: fiquei lá por horas a fio. Eu estava com celular e a outra mulher recém parida ao meu lado que sofria com a ausência de seu filho e marido também me pediu para usá-lo. Ela queria falar com o marido, saber do filho… ela estava lá há horas também.

Quando finalmente me levaram para o quarto encontrei vários familiares que me aguardavam, mas eu não queria ver ninguém, só perguntava por minha filha. Todos foram embora, já era madrugada e eu não sentia mais nada, desejei que ela ainda não tivesse nascido, assim ainda estaríamos juntas. De hora em hora pedia ao meu marido que fosse atrás das enfermeiras e pedisse que me trouxessem ela.

Quando a trouxeram já era de manhã. A enfermeira ainda me disse que esta demora toda era para que a mãe pudesse descansar! Eu não podia acreditar… Como uma mulher que acaba de parir consegue descansar longe de seu bebê? A partir deste momento eu não solicitei a ajuda da enfermagem, não deixei que a levassem em nenhum momento. Eu não sabia muito bem como fazer as coisas, mas juntas eu sabia que podíamos tudo e assim foi, eu cuidei dela, acalentei, troquei, dei banho, fiz dormir, era tudo o que queríamos.

E assim tem sido nos seus dois anos de vida nós duas jamais nos separamos outra vez por tanto tempo e sem o consentimento de ambas. Quando viemos para casa ficou ele passou 2 meses praticamente no colo, bem pertinho de sua mãe e seu pai, sling, cama compartilhada, amamentação em livre demanda (contrariando as orientações da pediatra, mas de acordo com o nosso instinto).

Milena sempre foi amada e respeitada e como resultado disso ela é uma garota muito esperta, fala de tudo, comunica suas vontades e é muito educada. Ela é criada com apego! Acho que ela conseguiu superar os primeiros momentos difíceis de sua vida, mas eu? Ah, eu acho que nunca será fácil lembrar do que passamos, das lágrimas e da separação inicial que ainda hoje me doem.

E penso em fazer bem diferente no meu próximo filho, ninguém mais me separa da minha cria. Este sentimento é tão ruim que só sabe quem passou… Torço e luto da forma que posso por um sistema obstétrico e neonatal mais justo e acolhedor para as mulheres e crianças do nosso Brasil, porque parir nós sabemos, assim como nossos bebês sabem nascer, mas o sistema não parece preparado para nos receber.”

Você passou por uma experiência parecida? Ou totalmente diferente? Se você deseja inspirar ou informar outras mulheres através da sua vivência de parto/nascimento, mande-nos a sua história para contato@comparto.com.br e nos publicamos nesta sessão!

 Foto: Eden Fangi Pane (www.edenfrangipane.com)

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