Relato: desafios da amamentação

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Meu filho Lorenzo chegou num parto natural lindo e intenso, como presente no dia do meu aniversário. Veio para o meu colo, onde foi examinado e de onde não saiu por horas. Não mamou, apenas namorou meu seio, sentiu o cheiro. No quarto, também não amamentei porque meu bico é invertido e exigiria de nós dois muita persistência e confiança. 

Depois de muito esforço, ordenhei meu colostro com ajuda da minha obstetriz e ele mamou com uma colherinha. Nao foi suficiente e ele tomou um copinho de fórmula. Aquilo me matou. Se dependesse das enfermeiras da maternidade, como meu bico era pra dentro, eu daria mais e mais complemento até ele “pegar o jeito” com meu seio. Meu instinto me dizia que eu deveria ir pra casa com meu bebê o mais rápido possível. E assim começa meu relato de amamentação.

Eu cresci ouvindo médicos falando que meus mamilos poderiam me dar problemas para amamentar. Então, quando estava grávida, previa alguma dificuldade, mas estava disposta a encará-la com paciência e confiando que pudesse ser algo instintivo, que eu saberia o que fazer. Li o que podia sobre o tema amamentação e parei por aí, porque não tem nada que se possa fazer na gravidez pra evitar dificuldades (nada!).

Bem, hoje posso dizer que fui atropelada pelo meu pós-parto, que teve a amamentação no centro das atenções. Com muito (muito mesmo!!) esforço e persistência, e apoio de uma consultora de amamentação, conseguimos ensinar o Lorenzo a mamar depois de uns dias de nascido. Sim, os bebês não nascem sabendo mamar e as mulheres não sabem dar de mamar apenas instintivamente. Pode ter uma ou outra que conseguiu e fico muito feliz mesmo! Mas eu faço parte dos 90% que tem alguma dificuldade.

Foram dias difíceis, de adaptação, de dar de cara com uma Verena diferente, que não dormia, que não pensava em outra coisa além de como alimentar o seu bebê. Também eram noites de um bebê novo por dia, que tinha mais e mais fome, que não dormia direito, que só queria sugar sugar.

Depois de 10 dias ordenhando leite, colocando na seringa e dando pra ele por meio de sonda, ele conseguiu fazer a pega perfeita, a boca de peixinho, a sucção correta. Fiquei tão feliz como no dia do seu nascimento. Tinha conseguido! Mal podia acreditar que eu teria essa chance de amamentar.

A euforia durou 24 horas mais ou menos, foi quando comecei a sentir dores. Eu sentia agulhadas de fogo saindo das mamas antes, durante e depois das mamadas. Não podia encostar uma toalha nos seios, a água do chuveiro me machucava. Eu não saía de casa, não recebia visitas, não vestia uma blusa. A nossa pediatra, a consultora de amamentação, meu obstetra… todo mundo diagnosticou uma possível candidíase nas duas mamas. Possível, porque candidíase tem um diagnóstico controverso. Eu nem sabia que isso existia. É fungo, aquele do sapinho que dá na boca de bebês.

Por causa da dor, tive que revezar mamadas no peito com complemento no copinho (no copinho, porque se eu desse mamadeira, o Lorenzo ia desistir do meu peito) para descansar as mamas. A essa altura, eu via a fórmula como uma aliada na batalha pra conseguir o sonhado aleitamento exclusivo. A cada semana eu ia achando um jeito de aguentar mais uns dias aquela dor.

Quase dei mamadeira pra ele três vezes, mas, chorando e com o coração apertado, eu nunca estive pronta pra desistir. Não queria que aquela fosse nossa história, pelo menos não ainda. Não era teimosia, como pensavam algumas pessoas próximas. EU não queria ser guerreira, só queria alimentá-lo. O Lorenzo merecia que eu tentasse mais. Por isso, fiz tudo de prático que podia: passei várias pomadas, tomei sol nas mamas sempre que tinha um intervalo, fiz dieta pra não alimentar o fungo, acupuntura pra dor, dezenas de sessões de laserterapia. Também tomei remédios naturais que me deram calma e me ajudavam a não potencializar aquela dor imensa que sentia.

Foram quatro semanas catando meus cacos a cada mamada, chorando no banheiro quando conseguia um intervalo pra fazer xixi pra não assustar meu marido e meu bebê.

Quando pensava em desistir, as meninas do grupo de pós parto e nossa pediatra me levantavam e estimulavam a tirar forças de dentro do meu coração e tentar uma nova manobra. Eu só queria amamentar sem dor e já não exigia que fosse até um ano ou dois. Se eu chegasse aos seis meses estaria radiante.

Quando nada parecia fazer efeito aparente, nossa pediatra insistiu que eu passasse em uma consulta com uma psicóloga especializada em pós-parto. Eu, que sempre fiz terapia e me considerava expert em mim mesma, relutei por alguns dias, mas decidi ir. Seria minha última cartada pra continuar tentando.

E aí que a conversa com a psicóloga foi reveladora. Eu enxerguei o que estava ali na minha frente e a dor não me deixava ver. Meu problema não era amamentar, era na verdade o pós-parto como um todo. Dormir pouco, fazer dieta pra candidíase, não receber visitas e não sair pra lugar nenhum estavam acabando comigo. Verbalizei: eu tinha saudades da Verena que tinha tempo de sobra pra si mesma, que tomava banho longo, se perfumava, saía quando quisesse. Tinha também medo do meu bebê acordar, porque, quando acontecia, eu teria dor amamentando ou dando fórmula em copinho. Com ajuda da psicóloga, me despedi dessa antiga Verena, dizendo que estava feliz com a nova Verena porque foi essa vida que eu havia escolhido.

Eu não sei explicar em termos práticos, mas saí de lá mais leve, enxergando a situação diferente. Brinquei com nossa pediatra que a conversa tinha sido como um voo de helicóptero: eu tinha visto a cidade toda (o pós parto) e não só um parque (a amamentação).
Nos dias seguintes, a candidiáse cedeu, eu parei de sentir a ardência. Fui voltando a comer um pão, um doce… Recebi algumas visitas mais próximas, conversava e outras coisas e sobre mim (ah a empatia). Sobraram apenas as fissuras, que me exigiram um pouco mais de paciência e tratamento.

Mesmo com tantos especialistas me dizendo pra não fazer (porque pode dar confusão de bicos, pode voltar o fungo por causa da umidade, sai menos leite e diminuir a produção), eu escolhi usar o bico de silicone para proteger minhas fissuras e dar a elas chances de sarar. Elas eram bemmmm profundas. Sentia que era necessário esse risco. O Lorenzo odiava o silicone, mas conversei com ele e expliquei que era necessário.

Algumas semanas depois, estou escrevendo este relato enquanto meu bebê dá goladas no seu tetê serenamente enquanto me olha satisfeito. Sem bico de silicone!!! Ele ganhou peso, cresceu, fortaleceu suas mamadas. E como mama!!!

Demorei alguns dias pra contar pra todo mundo que eu não sentia mais dor. Parece que eu não queria acreditar que eu tinha direito a uma verdadeira “lua de leite”. Agora rezo todos os dias pra seguirmos assim pelo tempo que for necessário.

O que fica de tudo isso? Amamentar comporta os verbos amar e alimentar em uma só palavra. Parece simples e a gente sonha com o bebê nos olhando enquanto mama e esperamos sentir aquele amor inigualável explodindo do nosso peito e saindo em forma de leite. Calma aí com o romantismo. É importante que as mulheres que querem amamentar saibam que nessa história há o improvável, o complexo, o inevitável. Seu bebê vai ter que aprender a mamar direito, pode e deve doer no começo, vai exigir de você, você precisa de apoio das pessoas a sua volta pra conseguir, mamadeira e chupeta vão te atrapalhar (não acredite no contrário!!!!)… E o mais importante: você precisa acreditar em você, respeitando seus limites, e ouvir seu coração.

E, claro, nunca esqueça que a amamentação não é só alimentação. É também aconchego, carinho, conexão, anestésico, vacina. É onde o bebê encontra seu porto seguro. Por isso tudo que acontece dentro de você e à sua volta tem relação com ele. Rede de apoio do parceiro e familiares, um pediatra pró-amamentação, um grupo de mães, persistência e paciência e informação são fundamentais. Cerque-se de pessoas que te respeitem e estimulem e ouça seu coração. Vai dar certo. Já deu!

Se no final, a sua história for diferente do que vc imaginou, pelo menos você tentou! E aí por isso já somos boas mães!

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