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Por Drika Trevisan

Este relato começa bem antes do parto, mais precisamente quando eu descobri que estava grávida da Emilia. Nessa hora, a primeira coisa que me veio à mente foi “Onde esse bebê vai nascer?”. Isso porque a Malu nasceu em São Paulo, num parto humanizado hospitalar (São Luiz), com uma equipe incrível que, obviamente, não poderia me acompanhar aqui em Salto. Minha atual ginecologista (de Sorocaba) tinha me dispensado, porque não atenderia mais nenhum parto aquele ano e eu estava sem rumo. Com exceção da Raquel, minha amada-amiga-doula, que mora em Indaiatuba, uns 20 minutos da minha casa. Os hospitais da região também não me animavam (ou não tinham UTI neonatal, ou não aceitavam doulas, ou eram cesaristas demais… nada do que eu queria para aquele bebê).

Se antes de ser mãe, eu achava o parto domiciliar um risco desnecessário, depois que tive a Malu e passei a estudar mais o assunto, e perceber que não era, assim, um bicho de 7 cabeças. E no atual cenário que me encontrava, comecei a considerar a possibilidade, mas tinham muitas, muitas dúvidas, muitas questões em aberto. O pontapé inicial veio Dra. Andrea, obstetra que acompanhou o parto da Malu. Já na primeira consulta pré-natal, ela disse que éramos fortes candidatos ao parto domiciliar, que haviam equipes ótimas no interior e que valia a pena procurar. O Beto não estava muito convencido da ideia, mas topou se aprofundar mais no assunto.

O passo seguinte foi conhecer uma dupla de enfermeiras obstetras, que atendiam em Campinas, mas estavam ali pertinho, em Indaiatuba. A empatia rolou logo de cara. A Camila e a Adriana eram calmas como eu precisava, mas também diretas e objetivas. Tiraram todas as nossas dúvidas/medos/angustias sobre o parto (e todas as outras novas, que surgiam a cada consulta). E também nos passaram algumas tarefas, tudo o que deveríamos providenciar para o grande dia (inclusive o plano B e C). *Nota Comparto: entenda a importância do plano de parto. Enquanto isso a gravidez seguia tranquila, sem nenhum risco ou intercorrência, todos os exames perfeitos. Nossa menina crescia forte e saudável.

Nas últimas semanas eu estava muito cansada. Muito mesmo. A barriga estava bem grande, pesada, não havia posição confortável para dormir. Além disso, a Malu estava sentindo a chegada da irmã e queria muito mais atenção, queria colo, dormir abraçada e tudo o que eu não tinha pique de fazer. A ansiedade também estava me consumindo. Eu tinha medo de não me entregar na hora do parto. De assustar a Malu, de incomodar os vizinhos e acabar me bloqueando. A partir da 38ª semana eu comecei a preparar a minha mente para o que tinha planejado, tentei ser o mais positiva e tranquila possível. Nesse período também já tinha rolado algumas consultas em casa, para que elas pudessem conhecer o ambiente e o caminho até minha casa.

Então, num domingo de sol, com 39 semanas e 3 dias, resolvemos passear no parque “Cidade das crianças”, em Itu. Como o parque é praticamente todo plano e com bastante árvores, aproveitei para caminhar um pouco. Deixei a Malu e o Beto brincando na areia e dei várias voltas por lá. Sem forçar a barra, apenas curtindo o passeio e fazendo carinho na barriga (enorme, baixa e encaixada rs). Não tinha muito expectativa, mas esperava que isso incentivasse o trabalho de parto.

À noite, já em casa, comecei a sentir uma leve cólica. Isso acionou todos os alarmes na minha cebeça. “É hoje! É hoje, é hoje!!”. Mas antes de espalhar alarme falso por aí, resolvi tomar um longo banho quente. Voltei para sala e a cólica virou contração. “Caraca! É hoje! Está acontecendo!”. Como ouvi muito que esse parto podia ser assustadoramente rápido, já que o primeiro foi bem rápido, e o segundo tende a superar o primeiro, já avisei a doula. Tentamos avisar a fotógrafa mas, por azar, ela estava sem celular aquele dia rs.

Combinamos que ela viria pra casa quando estivesse um pouco mais ritmado e avisaria o resto da equipe para ficar alerta. Como já era 21h, subi para colocar a Malu para dormir. Parece até que ela sentiu algo diferente no ar, porque demorou horrores para pegar no sono, o que começou a me deixar impaciente (ansiedade do parto + criança que não responde às expectativas + dor começando a incomodar = irritação incontrolável). Deixei o Beto com ela e fui tentar relaxar um pouco. Quando a doula chegou a Malu já estava dormindo na cama dela e eu estava no meu quarto, com aquecedor ligado e uma música suave ao fundo. A partir daí eu tinha que levantar e ficar apoiada no Beto durante as contrações. A respiração e as massagens nas costas ajudavam muito e estava tudo incrivelmente suportável. Ficamos assim por algumas horas. Nesse meio tempo as enfermeiras chegaram. E passaram a checar os batimentos dela com frequência. Tudo estava bem. Nem cogitaram fazer exame de toque, eu também não queria saber, se não tivesse dilatado nada ainda, poderia ser um banho de água fria.

Enquanto o Beto inflava e enchia a banheira no nosso quarto, eles revezavam pra ficava comigo. Até que em algum momento me deu um estalo: não estava me entregando. Por algum motivo eu estava com o freio puxado e, se eu não fizesse alguma coisa, ela não iria nascer tão cedo. Nessa hora eu notei que as contrações vinham mais intensas e doloridas quando eu me mexia. Então vamos lá: sentei na bola de pilates e me movimentei máximo que pude. As contrações se intensificaram muito e eu tentava me manter focada. “Calma, você consegue, já passou por isso. Sabe como é”, eu repetia para mim mesma. Se antes eu conversava e brincava, agora eu precisava ficar quieta e concentrada. Mas, ainda sim, eu sabia que tinha um longo caminho pela frente.

Às 5h a Malu acordou com a movimentação e foi para minha cama. Tomou uma mamadeira e ficou lá, acompanhando tudo, sem se abalar. Num determinado momento me ofereceram para entrar na banheira. Não sei se eu já estava nesse ponto, de precisar da água para acalmar, mas aceitei. A sensação foi incrível, mas bateu um medo de desandar tudo. Santa inocência. De repente começou a pegar fogo, a dor estava insuportável e eu não conseguia achar posição confortável. Com o tempo frio, a água não ficava quente por muito tempo e eles precisavam repor muitas vezes. Comecei a ficar meio desesperada, então o Beto perguntou se eu queria que a Malu fosse para a escola. Sim, peloamordedeus! Não queria nada que pudesse me distrair naquele momento. Já era 7h, então ele a arrumou rapidinho e saiu. A Raquel assumiu o lugar dele e depois me ofereceu o rebozo para eu segurar nas contrações. Ajudou muito. Mas ainda doía demais. Muito mais do que no parto da Malu e eu precisava gritar. Em pensamento, pedi desculpas aos vizinhos e gritei. MUITO. FORTE. Usava minha voz para botar pra fora toda aquela dor. Comecei a dizer que não ia dar, não tinha mais forças. E ouvi alguém dizer palavras de apoio. Que faltava pouco, que ela estava chegando.

Assim que o Beto estacionou o carro na garagem, saiu uma vizinha para falar com ele, estava preocupada com os gritos. Achou que eu estava sozinha em casa. Ele deu uma breve explicação e entrou correndo. Ufa ele voltou. Vontade de fazer força. Círculo de fogo. Mais dor. Virei de cócoras, apoiada na borda na banheira. Nossa, muito melhor. Agarrei no puxador do meu guarda-roupas, que estava colado na banheira e comecei a fazer toda força que eu podia em cada contração. Então, lembrei da laceração anterior e tentei me controlar. Empurrando devagar, sentindo ela passar. Aqueles momentos finais pareceram uma eternidade. Até que, enfim, senti minha gorduchinha nascendo. Ela também nasceu na bolsa. Só estourou quando saiu a cabeça. O Beto e a Camila estavam de plantão para pegá-la, já que minha posição não me permitia. Logo em seguida, com ajuda da Raquel, virei e sentei de volta na banheira. A Emilia foi colocada no meu peito e eu nunca vou esquecer a delícia de sentir seu corpinho quente e escorregadio junto ao meu. Eu lembro da Adriana ficar admirada com o tamanho dela. Era uma bebezona cheia de dobras, cabelos e pelos. Nem bem saiu e já começou a chorar alto e forte. Aquele som preencheu toda a casa. Choramos junto. Não ficamos muito tempo na água para que ela não ficasse com frio. Me ajudaram ir para cama e nos cobriram com lençóis e panos quentinhos.

Em menos de 10 minutos ela já começou a procurar o peito e a sugar com força e vontade. Ficou assim, mamando tranquilamente por uns bons 40 minutos. Esvaziaram a banheira, a placenta saiu, cortaram o cordão, o Beto avisou a família e a Dona Emilia mamando numa boa.

Quando ela já estava relaxada, eu tirei do peito para que pudessem pesar, medir e vesti-la. Aos poucos a família começou a aparecer para conhecê-la. Todo mundo ainda sem acreditar no que tinha acontecido, já que mantemos nosso plano em segredo até o último instante. Depois de levar uns pontinhos (ai, ui) vesti um pijama, comi um açaí no capricho feito pela Adriana e voltei amamentar a Emilia. Aí me deu um siricutico que precisava da Malu lá com a gente e minha sogra foi buscá-la. Ela chegou e conheceu a irmã vestida de uniforme ainda (olha que doida que fui!!!). Já era quase 13h e minha sogra trouxe uma sopinha deliciosa pra mim. Que eu acabei botando toda pra fora, de tanta dor que senti com as contrações pós-parto. Cada vez que a Emilia mamava, meu útero contraía e eu chorava de dor. Isso durou alguns dias. Arrisco dizer que doeu mais que o parto.

A equipe ainda ficou algumas horas com a gente, para garantir que tudo estava bem e voltou no dia seguinte. Nas semanas seguintes pediam notícias via whattsapp, sempre muito atenciosas. Como moramos num sobrado, só desci as escadas quase 2 dias depois. Descansei o máximo que pude, enquanto o marido cuidava da Malu e da casa. Foi uma experiência incrível poder parir em casa, do meu jeito, apenas com as pessoas que eu escolhi por perto. Com todo o amor e segurança que ela precisava.

 

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