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Antes do começo da vida
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Por Thaiz Leão Gouveia, Mãe Solo

Minha memória é um ser ausente de mim… tudo tudo tudo vou perdendo em névoa, só sei o que já foi por que hoje estou o estado somatório de todas as coisas que me orbitaram. Quase hoje fazem quase dois meses e essa é uma prévia do meu relato para mim mesma e para vocês.

16h00 – 17 de maio de 2014

Antes de dizer como meu filho nasceu preciso dizer que Dona Izabel, minha vó, viveu e pariu seus filhos no interior de um mundo esquecido entre a Paraíba e o Pernambuco, apenas com a crença de que seu corpo tinha a intenção aguda de gerar vida. Vale ressaltar: crença, não convicção. Convicção é coisa de mulher urbana, desnudas e debaixo do céu escuro à pelo menos 5 km de qualquer coisa ninguém ousa ter convicção de nada, porque sabe que se tiver todo o céu, em sua infinita complexidade, ri. Então começo assim dizendo que o estado somado daquilo que sou aprendeu muito dessa e de outras mulheres e que só por isso hoje posso acreditar em minha força.

Quem conhece a história sabe que desde que eu disse sim para o Vicente nascer entrei em uma luta de quase uma gestação inteira para parir. Primeiro contra os conceitos nucleares tão bem estabelecidas e invioláveis do que é família, que tantas vezes nos primeiros meses de gestação me afastaram de cair na graça de me descobrir mãe, a todo momento tinha de afirmar, de gritar, de não me deixar abalar, pelo direito de me entregar a minha vontade, pelo direito de não prestar satisfação sobre meu corpo, minha vida e meu filho. Falar não ao aborto e ao medo e dizer sim para sua vida, e quem quisesse entender o porque de modo claro que entrasse nas sombras das minhas entranhas. Quando finalmente me tornei mãe-loba, decidi não parir no hospital. Não, não escolhi fazer um parto domiciliar mas sim NÃO fazer um parto hospitalar. E assim eu pude parir do meu jeito.

Quase 41 semanas e nenhum sinal do Vicente vindo. Sou ansiosa por definição. Na DPP já estava chorando, queria sentir de alguma maneira que meu corpo estava pronto para traze-lo. No fundo sabia que era só confiar, o que tiver de ser vai ser, mas eu não queria. Queria que o universo atendesse meu desejo sem surpresas, e esse desejo era uma festa de boas vindas que começasse e terminasse em casa, onde eu e meu filho nos reconheceríamos ao avesso do que vivemos até então.

E assim foram as Boas Vindas do Vicente: 20h10 Todo mundo tentou me acalmar, coitada da Janie e da Ana Cris, eu sabia que tava tudo bem mas sou dessas que vive uma tempestade dentro de si. E nenhum sinal do desague.

21h00 Entrei a noite de sexta quase sem perceber que estava tendo contrações, não por que não doíam, mas eu tava tão encanada com essa história de talvez ter de fazer indução que apenas as anotava mecanicamente. Dois dias antes já tinha passado por uma noite de leves contrações, achei que ia ser a mesma coisa…

21h17 Conversei com a Ana sobre o uso do preparado de óleo de ricino caso meu corpo não desse sinal de vinda, ficamos de elaborar um plano na segunda quando completaríamos as 41 semanas. Me acalmei e disse para a entidade biológica primitiva que chamo de corpo: “ok, você tem até domingo para fazer sua mágica”… e ele fez.

01h22 As contrações voltaram e continuaram, fiquei pensando se iria ligar já naquele momento para minha doula (Janie), mas não liguei, não queria perturbar ninguém e principalmente não queria perturbar a mim mesma, por isso sentei na sala no escuro e deixei acontecer… até que lá embaixo me veio a certeza, hoje ele vem. Chamei a Janie.

03h27 Eu e a Janie passamos a madrugada nas contrações, tentei dormir entre uma e outra mas deitada parecia que as contrações vinham mais cruciantes, preferia ficar em pé ou sentada ou simplesmente bem longe da bola. Viramos a madrugada e então veio a manhã, recebemos visitas para passar o tempo, inclusive de outros bebes pra chamar o Vicente para brincar.

07h12 Amanheceu um dia bonito, o dia do meu menino.

14h00 7 cm. O andamento da coisa me pegou de surpresa, desde o começo eu esperava somente uma coisa do parto: muita dor… uma viagem de primeira classe para a partolândia. Mas ali estávamos nós com 7 cm de dilatação e eu abrindo a porta para a fotógrafa (Anna Amorim) enquanto o pessoal enchia a banheira. Mas de novo… não é que não doía, só é que não doía tanto quanto eu tinha imaginado.

15h00 Banheira cheia, e ainda bem. As contrações estavam mais frequentes e chatas, quando vinham eu optava por cair num buraco dentro de mim, no escuro. Funcionou.

15h30 Durante todo o dia eu fugi de sentir a dor das contrações, mas tinha chegado a hora. Pra ele vir eu ia ter de parir e para parir eu abri as portas e fechei os olhos. Quando ele tava já encaixadinho pra sair a Janie e a Letícia me instruíram para eu mesma sentir onde ele estava, foi indescritível. Ele tá ai, agora é só abrir, né? Veio uma contração e a “força”, não era mais “esperar vir” era “fazer acontecer”. Eu tava quase sempre de olho fechado, no meu escuro, teve uma hora que abri os olhos e percebi que estavam todas ali, não só eu e meu filho, mas toda uma roda de mulheres, todas ali para cada um dos meus suspiros esperando ansiosas junto comigo pela vinda do meu pequeno unicórnio. Ele nasceu dali há 2 contrações (acho), a cabeça em uma (doeu) e toda nossa vida em outra, e a partir dai esqueci meu corpo. Ele veio de astronauta, com a bolsa na cabeça, e era lindo, infinito e rosadinho. Me perdi, dali em diante acordei mãe e feliz.

 

** Você sabia que a Thaiz lançou uma coletânea de suas tirinhas e cartuns em um livro? É o Chora Lombar, em que a personagem, Mãe Solo (alter ego da autora) desconstrói o romantismo da maternidade e traz a real de forma leve e bem humorada (além de muito certeira!). Aproveite, que está disponível aqui no site mesmo, na nossa loja virtual e temos certeza de que toda mãe vai se identificar. 

 

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