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Indução de Parto
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O relato que trazemos hoje é o da Joana, mãe de primeira viagem que escolheu o parto natural para ser realizado no local em que mais se sentia à vontade: em casa. Ela nos conta um pouco das dores e das expectativas que cercam este momento tão especial e também nos conta a tranquilidade transmitida pelo companheiro e por todas as profissionais envolvidas em ricos detalhes. Acompanhe a seguir:

E 15 dias depois, eis aqui o meu relato…

Numa piscina inflável no meio da sala, a água transparente agora é vermelha. Pedaços de íntimas entranhas flutuam. Eu tremo descontroladamente deitada sobre um edredom no chão. Seguro contra o peito uma pessoinha pequenina que acaba de sair de dentro de mim. O homem que eu amo está ao meu lado com lágrimas nos olhos. Nossa cachorrinha observou preocupada e quieta, deitada no sofá, a chegada da nova integrante da matilha. Nos apoiam duas mulheres queridas cujo ofício é ajudar a nascer: a bebê que estava há pouco no útero, mas também a mãe e o pai até então por vir.

Nesse instante logo após dar a luz, não importam as dores e os gritos que povoaram a madrugada. Importa apenas a vida dela, a pele dela encontrando a minha, a fome dela. Dela que mal nasceu e já abriu os olhos em busca do mundo. Que mal nos olhou e desencadeou um amor sem tamanho. Junto com a bebê nascemos, e nasceremos a cada instante, família.

Penso agora que nunca mais usarei a palavra parto em vão. “Nossa, aquela estreia foi um parto”, “Que parto terminar esse capítulo!” e assim por diante. Eu não fazia ideia do que de fato era um parto. E sinto, conforme passam os dias, que é possível me escapar novamente a dimensão dessa palavra. Experiência única para a qual não consigo estabelecer uma comparação que seja.

Dói e as mulheres devem saber disso. Mas devem saber também, acredito, que nessa dor encontrei dimensões desconhecidas da mulher que sou e, o mais importante, encontrei com a minha pequena me sabendo forte e a sabendo forte. Mulheres – mãe e filhota – mamíferas. Uma noite escutando o corpo, os sentidos, deixando a natureza fazer o que faz. Se me perguntarem se quero passar por outro parto agora, digo certa que não. Mas pelo parto que eu passei, passaria novamente do jeitinho que ele foi. Em casa, sem anestesia, sem episiotomia, sem ocitocina. Cada contração sentida. Eu, ela e ele na situação mais íntima e de maior parceria até hoje vivida. Um rito de passagem.

Penso no nosso mundo que não quer saber de dor. No imperativo da felicidade, no uso abusado dos remédios. Ter sentido cada etapa desse parto fez parte. Estar ativa no pleno funcionamento do meu corpo fez parte.

Narro assim publicamente esse acontecimento que guardaria apenas à família e aos amigos pois, na reta final da gravidez, não me serviam mais os livros, as informações, as opiniões, as estatísticas… No entanto, encontrava aconchego nos relatos de outras experiências vividas, sem verdades de nenhum tipo, apenas histórias íntimas como essa minha que conto agora.

Na noite do dia 19 de dezembro de 2015 (40 semanas + 4 dias) estávamos recebendo alguns poucos e bons amigos em casa. Seguindo um bom conselho, nos ocupávamos de uma atividade prazerosa ignorando as ansiedades alheias que inundavam nossos celulares depois de completas 40 semanas de gestação. Foi uma noite curiosa. No meio do encontro pedi para que fôssemos todos levar a cachorra para passear. Queria andar um pouco. Às 22h30 começamos, eu e meu companheiro, a contar o intervalo entre contrações. Ou o que eu ainda achava que eram contrações: o endurecimento repentino da barriga. Não havia dor nem esforço. Apenas a barriga ficava feito pedra por sua própria conta e depois relaxava. 7 minutos entre uma e outra, 10 minutos, 5 minutos… Deviam ser as tais contrações de treinamento do útero. A essa altura a expectativa já tomava conta dos presentes. Eu sabia, por meio das experiências alheias, que esses sinais poderiam durar dias antes que algo de fato acontecesse. Meu desejo era não pensar. Já não conseguia me comportar como de costume em um encontro social. Conversava me alongando no meio da sala, me recolhia quieta, perdia o fio da meada dos assuntos. Em um dado momento pedi licença e fui tomar um banho. Tudo meio sem razão, apenas coisas que eu sentia vontade de fazer. Já eram 1h30 do dia 20 quando nossos amigos estavam se despedindo e eu, sentada no sofá, senti algo muito diferente do que vinha sentindo até então, uma pontada forte na parte baixa da barriga. Saí correndo para o banheiro, nem me lembro muito bem para quê, enquanto o Alê com um enorme sorriso no rosto acelerava as despedidas. Ele fez bolsa de água quente e esticou um edredom no chão da sala onde ficamos deitados no escuro ouvindo Nina Simone. Conforme todo um outro nível de contração me era apresentado, ele iniciou o contato com a obstetriz.

A Bianca, primeira parteira a vir, chegou em casa por volta de 3h15. Às 3h30 a bolsa estourou. Helena nasceu às 8h41. Essas 5 horas e 11 minutos foram das mais intensas da minha vida. No meu caso foi um percurso relativamente curto, mas sem descanso.
Ao Alê coube apoiar-me o tempo todo: massagens, respirações, camomila, água quente, olho no olho, mão na mão. Até uma mordida aguentou o meu amor. Nós não tivemos doula, mas descobrimos como é fundamental essa função. Na nossa história, foi meu parceiro que vestiu a camisa e achou um jeito próprio, a partir de suas experiências de vida, de saber e fazer o que era preciso. Eu nada seria noite a dentro sem ele e sem água quente.

Lembro de agarrar as duas torneiras do chuveiro e acocorar-me fazendo força. Lembro de realizar a passagem do tempo ao ver pela pequena janela que o negro cedera ao cinza e a luz começava a invadir a casa. Disse por vezes que não daria conta. A Bianca e a Maíra mediam os batimentos da nenê a todo momento, sugeriam estratégias ao Alê para me ajudar, o mantinham informado de cada etapa e, no auge do meu sofrimento, me lembravam que eu estava indo bem e chegando ao fim-começo da jornada.

Lembro de perguntar se deveria fazer força ou tentar relaxar durante as contrações. “O que o corpo tiver vontade”, a Bianca me disse. E sim, o corpo sabe.

Lanço esse relato ao mundo, pois gostaria de ajudar, nem que um pouquinho, a ampliar o olhar comum para o parto em casa. Sempre soube que gostaria de ser mãe um dia, mas nunca tinha parado para pensar de fato sobre o assunto antes de engravidar. Não fiz planos nem tinha expectativas. A única coisa que eu sabia é que queria um parto normal. Foi ao longo da gestação que conversei com mulheres-mães, vi documentários, frequentei encontros de apoio à maternidade ativa e fui descobrindo as diversas opções de parto. Foi na quarta tentativa que chegamos à Taísa Catania, obstetra humanizada que super apoiou minha escolha pelo parto domiciliar. Sobre ele, convido quem tiver vontade a procurar saber mais. Não se trata de uma “loucura hippie”, uma irresponsabilidade ou outros tantos pré-conceitos com os quais me deparei ao longo do percurso. Procurem saber dos recursos e dos acompanhamentos disponíveis. Pesquisem equipes confiáveis. Se informem dos riscos do parto domiciliar, mas também dos riscos do parto hospitalar. Se perguntem se uma gravidez tranquila deve necessariamente ser tratada como um procedimento médico ou como uma processo natural, seja no lugar que for.

Não tenho a menor intenção de pregar um tipo de parto. Cada mulher deve escolher o que é melhor pra si de acordo com a sua história. Mas para que isso seja possível é preciso transpor a muralha do senso comum. Eu e meu companheiro visitamos uma maternidade super renomada e uma casa de parto hiper fofa ligada ao SUS. Opções possíveis para um parto natural. Mas quanto mais a hora se aproximava, mais nos pegávamos preparando a nossa casa para a chegada da pequena. Para nós assim foi: um acontecimento íntimo, em dia de festa, uma inesquecível boa hora.

Você também quer ter o seu relato aqui? Mande para nós no contato@comparto.com.br.

6 Comentários

  1. Cristina disse:

    Que delicia de relato, estou me planejando para engravidar este ano, em fevereiro irei participar se um encontro aberto de um grupo que oferece assistência ao parto domiciliar planejado aqui em Florianópolis, infelizmente não confio nos protocolos dos hospitais públicos da cidade e acho que não terei money para arcar com o parto no Ilha Hospital que tem relatos maravilhosos de partos humanizados, é só acessar o blog da Cris Doula e conferir, mas esses relatos me encorajam muito, inclusive li um em que a mãe teve hemorragia logo após e foi rapidamente controlado pela equipe que estava assistindo, por isso concordo que parto domiciliar não é coisa de gente irresponsável, hippie, dentre tantas outras coisas que insistem em falar, a minha decisão está sendo tomado pois para mim o respeito com a recepção ao recém nascido e com a mãe durante o processo é de extrema importância e não uma simples frescura como já me apontaram…..

    • Que bom que você está se informando e tomando as decisões que parecem mais coerentes para vocês, Cristina! Esperamos que encontre uma equipe acolhedora e competente para acompanhá-la nesta jornada. Depois venha aqui nos contar como foi o seu parto e colocamos na sessão de relatos para inspirar outras gestantes ?

  2. Rayanne disse:

    Que lindo relato de parto! É tão bom poder se deparar com histórias de quem se deixou tomar pela informação, e por fim pela própria natureza e instinto. Eu, fazendo 31 semanas hoje, sempre que posso corro dar uma espiadinha nos relatos, vejo que a cada dia algo a mais me impulsiona para o PD, já há uma grande vontade, mas também há dúvidas e medos, e depois de falar com outras pessoas, entendi que todos já passaram por isso, a decisão é uma construção, e o medo faz parte sim! Então agradeço esse relato que encoraja, que faz brilhar os olhos ao pensar que daqui por mais ou menos 9 semanas sou eu, da minha forma, com a minha dor, com as minhas X’s horas de trabalho de parto, quero ser mais uma a conhecer essa sensação, esse poder, a poder passar para outras que estão neste caminho, ou que começarão, me tornar mãe da maneira que considero natural, linda, saudável pra minha filha, pra mim, pro meu parceiro, já sonho com nossa família nascendo, a poder também renascer! =)

    • Adoramos saber que acompanha o blog e busca não só informação de qualidade, mas também se conectar à sua natureza e seus instintos, Rayane! Logo, logo traremos posts sobre locais de parto e esperamos que esteja acompanhando – quem sabe encontra aí mais uma possibilidades de saber a respeito e tomar sua decisão final sobre o PD que tem vontade. Esperamos também que encontre uma equipe acolhedora e competente para auxilia-la e estar junto de você e sua família nesse momento tão importante.
      E não esqueça de nos contar como foi! Assim como você achou conforto e segurança nas palavras de outras mães, podemos ter seu parto na sessão de relatos para inspirar outras gestantes <3

  3. Ana Bia disse:

    Olá, Você ainda tem o telefone da dra Taisa Catania? Poderia me passar por e-mail. Obrigada!

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