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Por Fernanda Miolaro Mendonça Tolstikow

Em março de 2014, depois de dois anos tratando a endometriose, parei de tomar a medicação que suspendia minha menstruação. Decidimos tentar engravidar. Em menos de um mês estávamos grávidos. Porém essa alegria durou pouco mais de nove semanas. Um aborto espontâneo retido nos tirou o chão. Deixei tudo acontecer naturalmente para o embrião sair, senti as contrações e dores do parto e ate pensei em desistir da ideia de parto natural.

Três meses depois, a alegria tomou conta da nossa casa novamente. Passadas as temidas nove semanas, comemoramos e começamos a nos preparar para curtir a gravidez de verdade e para o parto natural. A essa altura, eu já havia desistido de desistir do parto natural. Afinal, natural é natural e esse sempre foi meu sonho.

Procurei uma equipe humanizada e começamos a frequentar os encontros de gestantes na clinica, as quartas-feiras. O marido sempre me acompanhou e foi assimilando, aceitando e adorando a minha escolha. Tudo correu maravilhosamente bem durante as 40 semanas e 4 dias de gestação.

Completei 40 semanas no sábado, dia 27 de junho, mas nem sinal de TP. Eu tinha consulta na segunda-feira, dia 29, estava tudo tranquilo, apesar da minha pressão estar levemente aumentada. Havíamos combinado com a médica de induzir na sexta-feira, dia 03/07, caso o TP não iniciasse naturalmente. Na segunda-feira, a Dra. Andrea fez uma massagem no colo, descolou uma aderência e me orientou a fazer uma sessão de acupuntura. Fui à sessão na terça a tarde, foi muito bom.

Voltamos para casa, jantamos e nem sinal do nenê querer sair do quentinho. Fomos dormir e quando foi meia noite eu senti uma dorzinha. Fui ao banheiro e percebi que meu tampão estava saindo. Voltei pro quarto e fiquei quietinha, sentada na cama. Percebi que as contrações estavam ficando fortes muito rapidamente, então acordei o Felipe as 12:43 exatamente. Avisamos nossa doula, a Raquel, que pediu para monitorarmos e enviarmos o relatório a ela.

Comecei ter contrações ritmadas logo e as 3 da manhã ela chegou em casa. Eu já estava com as contrações de 5 em 5 minutos e usando muito as técnicas de respiração aprendidas no curso de Hypnobirthing.

Amanheceu e parecia que meu TP não evoluía, então a Raquel me perguntou se poderia ligar pro acupunturista para vir em casa fazer mais uma sessão. Acupunturista e enfermeira a caminho de casa. A obstetriz, Priscila, chegou primeiro e quando monitorou minha dilatação: Meu Deus, estava com 8 para 9 cm…vamos agora pro hospital. Cancela a acupuntura.

Fomos no carro, eu, o Felipe e a Raquel. A enfermeira foi no carro dela. Felipe ligou o pisca alerta e fomos pelo corredor de ônibus. Moramos na zonal sul de SP e o hospital fica no Pacaembu, há pelo menos 45 minutos sem transito. Quarta-feira, entre 9 e 10 da manhã, muito transito (ganhamos de presente 4 multas, e mesmo recorrendo o Felipe perdeu a carta). Cada contração que vinha, me dava uma vontadinha de fazer força e a Raquel falava: “Não faz força que o nenê vai nascer aqui no carro”. Chegamos no Hospital Samaritano e já entrei, sem passar pela triagem.

Dor intensa, cardiotoco e “lembra de respirar”. Subimos para o quarto do hospital e a imagem que não sai da minha cabeça: minha equipe maravilhosa transformando o quarto do hospital em um ambiente acolhedor pro nosso pequeno (nem tão pequeno assim) chegar. Empurra a maca, afasta o sofá, tira a mesinha, apaga a luz, acende o abajour de luz vermelha e senta na bola. Entra no banho, sai do banho, senta na bola, volta pro banho com a bola…e nem a bolsa havia rompido ainda.

Aceitei a ideia de encherem a banheira, o que infelizmente para mim não funcionou. Não gostei da sensação da água quente, não encontrei posição e fiquei muito pouco tempo dentro da água. O chuveiro funcionou muito melhor. Na banheira a Dra. Andrea fez um toque e eu ainda estava com 9 cm, então minha bolsa rompeu e só aí, o bebe desceu.

Durante o TP no hospital foi que eu realmente senti o que era a tal vontade de fazer força. “Incontrolável”. Eu já estava exausta e pedi para a Dra Andrea que queria analgesia. Me lembro de no chuveiro falar pra Raquel e pra Priscila: corta minha barriga, eu quero cesárea, e a Raquel logo falou: “Vc tá louca, tá nascendo já, vai que vc consegue”. A equipe tentou me convencer de não tomar analgesia, ate porque eu havia dito durante o pré natal que não queria anestesia, mas eu insisti. Então a Dra. saiu do quarto e quando voltou me disse que em 40 minutos o anestesista estaria no hospital.

Vieram mais algumas contrações, os puxos cada vez mais fortes. Testamos a banqueta de cócoras e eu achei muito confortável. Então a Dra. falou que só faltava a cabeça do bebe passar pelo colo e ai seria mais fácil. Então, eu na banqueta, fiz uma força enorme e com a ajuda da medica, pronto, passou a cabeça. “Chama a maca, vamos subir pro centro cirúrgico, liga pro anestesista cancelando, não faz força no elevador que o seu nenê vai nascer”

De novo, o centro cirúrgico foi transformado na sala mais acolhedora que um hospital pode ter. Apaga a luz, forra o chão, afasta a maca, acende a luz vermelha, equipe sentada no chão e eu na banqueta de cócoras. E o maridão ao meu lado, incansável. Fiz muita força, e a Dra falou para eu sentir o cabelinho dele, que emoção. Mas ele não nascia e eu achando que meu períneo estava todo rasgado, era essa a sensação que eu tinha.

Então a medica falou pra eu sair da banqueta e ir para o chão (sim, como índia, como a Juma Marruá, como eu sempre falei que teria um filho) e foi ai que a cabecinha saiu, as 17:02 do dia 01/07. Volta pra banqueta e mais umas duas ou três contrações, saiu o corpinho. A melhor sensação da minha vida.

Com o meu filho nos braços, eu levantei, ainda com o cordão preso ao meu corpo, fui andando ate a maca. Ele “escalou” meu corpo procurando o seio, exatamente como havíamos visto em um vídeo e havíamos duvidado que seria verdade, só não nos lembramos que somos bicho e bicho sabe o que tem que fazer.

Esperamos o cordão parar de pulsar, meu marido cortou, nenê mamou na primeira hora, não foi aspirado, não teve colírio nos olhos e eu não tive nenhuma laceração. Ele nasceu enorme, com 53 cm e 3.735 kg. Valeu o esforço, valeram as horas de epi-no, valeu o estudo, valeu tudo. Minha recuperação foi perfeita, meu filho é um bebe muito calmo, cheio de personalidade e não bastasse ter nascido como índio, ele adora ficar pelado.

Ainda não sabemos se teremos outro filho, mas passaria por tudo isso novamente, com toda certeza. Agradeço muito todos os profissionais que fizeram parte da minha preparação, agradeço a insistência e a paciência de cada um. A lição que tirei desse momento é que somos mesmo muito “raçudas”, fortes e que é uma delicia se sentir empoderada e mãe bicho. A natureza é muito perfeita.

 

** Já conhece a #CadaNascimentoImporta, campanha da Comparto que quer garantir que, como a Fernanda, mais mulheres sejam donas de seus partos e possam ter acesso à informação e apoio? Acesse, conheça e contribua. Encerra em 15/09/16!

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